Category Archives: Portugal

A falta de espanto

Feliz­mente, está a che­gar ao fim uma das sema­nas mais tris­tes dos últi­mos anos para Por­tu­gal. Nesta semana, para quem ainda tinha dúvi­das, foi fácil cons­ta­tar que:

  • O fute­bol e a reli­gião são duas for­ças motri­zes da nossa sociedade
  • O governo é opor­tu­nista e men­ti­roso ao dei­xar para esta semana –  em que quase toda a gente anda dis­traída a tirar areia dos olhos — os anún­cios de aumen­tos de impos­tos e cor­tes sala­ri­ais, ao con­trá­rio do que havia prometido
  • Nós come­mos e cala­mos e até parece que já nem custa a engolir
  • Con­ti­nu­a­mos iguais a nós pró­prios em tudo aquilo em que somos mesmo maus e não há maneira de con­se­guir­mos pro­te­ger as pou­cas coi­sas boas que temos
  • Temos uma janela de cerca de 15 dias para fin­gir que refi­la­mos; entre­tanto, chega o Cam­pe­o­nato do Mundo de fute­bol e depois as férias, e depois o regresso às aulas e depois já é Natal outra vez e fica tudo em paz!

O mais espan­toso é que já nin­guém se espanta que assim seja… Viva Portugal!

O incómodo e a desilusão

Fin­gir que não me sinto inco­mo­dado com todo o ala­rido feito à volta da visita do Papa não faria sen­tido nenhum. É claro que me sinto inco­mo­dado! E muito…

Mas, o que me inco­moda não é nem a sua pre­sença, nem as reac­ções orgás­mi­cas daque­les que o ido­la­tram. Não, nada disso! Fico inco­mo­dado — isso, sim — com a faci­li­dade com que a classe polí­tica naci­o­nal manda à fava a Cons­ti­tui­ção da Repú­blica Por­tu­guesa, desde Pre­si­den­tes de Câmara, pas­sando por Pri­meiro Minis­tro até ao Pre­si­dente da Repú­blica, tudo em nome de um popu­lismo fácil, saloio e inconsequente.

Que desi­lu­são! Assis­tir em 2010 a este fenó­meno de pro­pa­ganda hipó­crita no meu país, com feri­a­dos absur­dos rebap­ti­za­dos de tole­rân­cia de ponto, com cam­pa­nhas de evan­ge­li­za­ção nas prin­ci­pais arté­rias da cidade de Lis­boa, com uma imprensa bolo­renta que ali­nha no show e nada ques­ti­ona, com o enca­rar tudo isto com a maior das pas­si­vi­da­des… sinto, pela pri­meira vez em toda a minha vida, não ver­go­nha de ser por­tu­guês, mas ver­go­nha de que exis­tam tan­tos por­tu­gue­ses a per­mi­tir que tudo isto acon­teça, sem pes­ta­ne­ja­rem, como se tudo fosse nor­mal. Saloios e mari­cas, é o que vocês são…

Tenho um amargo sabor na boca… É o sabor de sen­tir que não adi­anta aca­bar com fas­cis­mos, con­ser­va­do­ris­mos, tota­li­ta­ris­mos, ili­te­ra­cia e igno­rân­cia no país sem que, pri­meiro, se tire tudo isso de den­tro das pessoas.

Pela minha parte, acabou-se. Con­si­dero que a Cons­ti­tui­ção tem sido des­res­pei­tada com todo este fol­clore e, como tal, sinto-me no direito de mudar de ati­tude em rela­ção à defesa da lai­ci­dade do Estado. Acabaram-se as gen­ti­le­zas, os diá­lo­gos pos­sí­veis e os ver­ni­zes poli­ti­ca­mente cor­rec­tos. Não é num país de idó­la­tras men­te­cap­tos que eu quero que as minhas filhas cresçam.

Grupo do Facebook dedica foto de perfil ao Papa

Pela pri­meira vez criei um grupo no Facebook:

Enquanto o Papa esti­ver em Por­tu­gal, a minha foto de per­fil é-lhe total­mente dedicada

Este é um grupo de pro­testo con­tra as mor­do­mias com que os órgãos de sobe­ra­nia naci­o­nais brin­dam aquele que, para além do chefe de estado do Vati­cano, tam­bém é:

- Chefe máximo de uma orga­ni­za­ção obs­cu­ran­tista
– Um dos prin­ci­pais res­pon­sá­veis nas últi­mas déca­das pelo enca­po­ta­mento de cri­mes de pedo­fi­lia na Igreja Cató­lica em todo o mundo
– Res­pon­sá­vel máximo pela con­ti­nu­a­ção de poli­ti­cas de desin­for­ma­ção con­tra o uso do pre­ser­va­tivo em África, con­tri­buindo para a dis­se­mi­na­ção da SIDA naquele con­ti­nente
– Repre­sen­tante de uma men­ta­li­dade anti-cientifica que tanto tem con­tri­buído para a estag­na­ção civi­li­za­ci­o­nal ao longo da história

Os nosso gover­nan­tes, lamen­ta­vel­mente, não con­se­guem resis­tir ao popu­lismo de não sepa­ra­rem a recep­ção ao chefe de estado do Vati­cano da sub­mis­são saloia e ter­ceiro mun­dista a um homem que repre­senta muito do pior da humanidade.

Como forma de pro­testo, até o Papa aban­do­nar o ter­ri­tó­rio por­tu­guês, a minha foto de per­fil é um preservativo.

Pedro Abrunhosa nos Ídolos

Pedro Abru­nhosa foi o artista con­vi­dado da penúl­tima gala da cor­rente edi­ção dos Ído­los. Deci­dido a arre­ba­tar todas as aten­ções para o novo disco a ser lan­çado bre­ve­mente, Pedro Abru­nhosa pro­ta­go­ni­zou uma apa­ra­tosa queda em pleno palco que, feliz­mente, não teve con­sequên­cias de maior.

Apre­cio o Pedro Abru­nhosa com­po­si­tor, não apre­cio o Pedro Abru­nhosa can­tor. Con­tudo, a capa­ci­dade de encaixe que ontem demons­trou fez subir a con­si­de­ra­ção que tinha por ele. Logo após a queda, quando ainda se recom­pu­nha, disse “com isto já vendi mais dez mil discos!” .

Como se não bas­tasse, pouco tempo depois do suce­dido, o pró­prio Pedro Abru­nhosa colo­cou o vídeo da sua queda na sua página do Face­book com o comen­tá­rio “PEDRO ABRUNHOSA CONFIRMA A SUA QUEDA PARA A MÚSICA!!!”.

Soberbo!

Para além de demons­trar uma enorme inte­li­gên­cia ao ser ele pró­prio a dar o bom­bom a todos aque­les que se riram com o ines­pe­rado da cena (eu tam­bém), deu pro­vas de que sabe rir de si pró­prio e que não havia mais nada a fazer senão ali­nhar na brin­ca­deira e ten­tar, assim, virar uma situ­a­ção algo cons­tran­ge­dora a seu favor. Muito bem, Pedro!

Carlos Costa nos Ídolos

Há pouco mais de dois anos, feli­ci­tei o Car­los Costa pela vitó­ria no 2º Con­curso de Kara­oke do Palpita-me. O Car­los, na altura com ape­nas 15 anos, demons­trava já uma matu­ri­dade impres­si­o­nante, dei­xando a larga dis­tân­cia todos os outros con­cor­ren­tes, tanto nas eli­mi­na­tó­rias como na final, que, por sinal, naquele ano teve um pata­mar bas­tante elevado.

A pres­ta­ção do Car­los Costa na pre­sente edi­ção do Ído­los só pode sur­pre­en­der quem não o conhece. Exi­gente con­sigo pró­prio, pro­fis­si­o­nal mesmo quando está a brin­car, o Car­los é um exem­plo do que deve ser um artista que sem­pre tenta fazer melhor e ultrapassar-se a si próprio.

Sem qual­quer menos­prezo pela qua­li­dade dos outros par­ti­ci­pan­tes desta edi­ção dos Ído­los, parece-me que o Car­los tem tudo para poder ser não ape­nas o pró­ximo ídolo de Por­tu­gal mas, muito mais impor­tante, ser um futuro ídolo de Por­tu­gal. E isso faz toda a diferença.

Inde­pen­den­te­mente das esco­lhas musi­cais do Car­los, de uma coisa eu tenho a cer­teza: o que quer que ele venha a fazer, ele vai que­rer fazê-lo de uma forma perfeita.

Para mim, que rara­mente vejo os canais de tele­vi­são gene­ra­lis­tas por­tu­gue­ses, é um pra­zer assis­tir em cada domingo a um Car­los Costa igual a ele pró­prio e que com­prova tudo aquilo que eu disse aqui neste blog há pouco mais de dois anos.

Para­béns, Car­los! Segue em frente.

Oh xôr doutor!

Gosto quando o Ricardo Pinho escreve assim.

House

Desproporcional

Come­çou o sufoco do futebol!

A esta hora, a coluna das “Últi­mas” no site da TSF inclui onze notí­cias de des­porto, das quais 6 são de fute­bol. Não há pachorra! E depois o Verão é que é a “silly season”.

ManifClima

Realizou-se ontem, em Lis­boa, a pri­meira mani­fes­ta­ção con­tra as con­di­ções cli­ma­té­ri­cas. Quem mais do que o “no-nonsense” do Pedro Tochas para levar a cabo tama­nha organização?

Vêm aí as eleições!

Vêm aí as elei­ções e ape­nas me ape­tece recor­dar a opi­nião de Ber­trand Rus­sel sobre os políticos:

A habi­li­dade espe­cí­fica do polí­tico con­siste em saber que pai­xões pode com maior faci­li­dade des­per­tar e como evi­tar, quando des­per­tas, que sejam noci­vas a ele pró­prio e aos seus ali­a­dos. Na polí­tica como na moeda há uma lei de Gresham; o homem que visa a objec­ti­vos mais nobres será expulso, excepto naque­les raros momen­tos (prin­ci­pal­mente revo­lu­ções) em que o ide­a­lismo se con­juga com um pode­roso movi­mento de pai­xão inte­res­seira. Além disso, como os polí­ti­cos estão divi­di­dos em gru­pos rivais, visam a divi­dir a nação, a menos que tenham a sorte de a unir na guerra con­tra outra. Vivem à custa do «ruído e da fúria, que nada sig­ni­fi­cam». Não podem pres­tar aten­ção a nada que seja difí­cil de expli­car, nem a nada que não acar­rete divi­são (seja entre nações ou na frente naci­o­nal), nem a nada que reduza o pode­rio dos polí­ti­cos como classe.

Ber­trand Rus­sell, in ‘Ensaios Cép­ti­cos: A Neces­si­dade do Cept­cismo Político’