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Apartidário, mas não apolítico

Den­tro de pou­cos meses vai realizar-se mais uma vota­ção naci­o­nal para ele­ger os depu­ta­dos para a Assem­bleia da Repú­blica para mais um man­dato de qua­tro anos. É altura para reflec­tir e exer­cer o direito de voto con­sa­grado na Cons­ti­tui­ção. Para os par­ti­dos polí­ti­cos é altura de arre­ga­çar as man­gas e ganhar ou con­so­li­dar apoi­an­tes. Mas, comigo, não se safam…

Existe um modus ope­randi comum a todos os par­ti­dos que me afasta facil­mente de qual­quer espé­cie de mili­tân­cia, uma vez que obriga a sobre­por o uti­li­ta­rismo par­ti­dá­rio à minha cons­ci­ên­cia e coe­rên­cia.  Trata-se da habi­tu­al­mente deno­mi­nada “dis­ci­plina de voto”. Podia chamar-se “nega­ção da von­tade pró­pria” ou “anu­la­ção do sen­tido cri­tico”, mas não, denomina-se “dis­ci­plina de voto”. Admito que é uma expres­são feliz; afi­nal, juntam-se duas pala­vras com boa cono­ta­ção e obtém-se uma expres­são que ape­nas quer dizer que den­tro dos par­ti­dos que par­ti­ci­pam no jogo demo­crá­tico a demo­cra­cia pode ser pon­tu­al­mente chu­tada para fora de campo, tudo no mais ele­vado inte­resse da pró­pria demo­cra­cia. Faz sen­tido? Não creio… A “dis­ci­plina de voto” é a anu­la­ção do direito ao livre-pensamento de que os depu­ta­dos, como todos os res­tan­tes cida­dãos, têm direito. A “dis­ci­plina de voto” é a nega­ção de que no nosso sis­tema elei­to­ral vota­mos em pes­soas para nos repre­sen­tar, não para repre­sen­ta­rem os partidos.

Uma vez que me recu­sa­ria sem­pre a res­pei­tar esse espí­rito anti-democrático da “dis­ci­plina de voto”, seria neces­sá­rio que eu con­cor­dasse em abso­luto com o pro­grama elei­to­ral de qual­quer par­tido, o que, admito, não só é pouco pro­vá­vel, como seria mesmo alar­mante. Por isso é que de há já bas­tan­tes anos a esta parte, o meu sen­tido de voto, nas mais diver­sas elei­ções, vai sem­pre vari­ando con­so­ante as cir­cuns­tân­cias, depen­dendo daquilo que eu con­si­dero impor­tante para a soci­e­dade por­tu­guesa à data das res­pec­ti­vas elei­ções. O par­tido que no seu pro­grama elei­to­ral mais se apro­xi­mar de mim nas ques­tões que eu con­si­de­rar cha­ves à data das elei­ções em ques­tão é o que ganha o meu voto. Esta liber­dade de voto é das coi­sas que maior pra­zer me dá. Eu, os par­ti­dos polí­ti­cos e a soci­e­dade em geral, temos todos o direito de mudar de opi­nião e de pro­gre­dir a velo­ci­da­des dife­ren­tes. Ficar­mos agar­ra­dos uns aos outros seria um empe­ci­lho. Nem eu me quero agar­rar a nenhum par­tido nem quero que nenhum par­tido se agarre à soci­e­dade e vice-versa para todos. Em nome da demo­cra­cia e da liber­dade de voto.

Car­toon: Dario Cas­til­le­jos

Par­ti­lha!
    democracia eleições legislativas 2015

    3 comentários em “Apartidário, mas não apolítico

    1. João Vasco diz:

      Hel­der,

      Sugiro que vejas este comu­ni­cado: http://livrept.net/comunicados/12313

      Verás que nem todos os par­ti­dos são iguais a res­peito da “dis­ci­plina de voto”.

    2. Helder Sanches diz:

      João Vasco,

      Obri­gado pela infor­ma­ção. Devo dizer-te que é uma agra­dá­vel surpresa.

      Espero que quando vie­rem a ter assento par­la­men­tar se man­te­nha essa opinião.

    3. João Vasco diz:

      Claro que sim, é resul­tado dos esta­tu­tos (que só podem mudar se dois ter­ços dos mem­bros do par­tido pre­sen­tes em con­ven­ção assim o deci­dir, algo muito pouco pro­vá­vel, visto que isto é uma coisa que faz parte da nossa identidade).

      A inde­pen­dên­cia dos depu­ta­dos é ainda maior pelo facto de não serem esco­lhi­dos pela direc­ção do par­tido, mas elei­tos em elei­ções primárias.

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