Quiçá ingénuo

Há mais de trinta anos que não ia a uma mani­fes­ta­ção, o que sig­ni­fica que nunca tinha ido a uma enquanto adulto. À de ontem tinha que ir. Era obri­ga­tó­rio. Pre­ci­sava de ir. E fui…

Ontem foi um dia que fará a dife­rença. Deixem-me ser opti­mista e, quiçá, ingé­nuo, mas espero que este­ja­mos não só no iní­cio da queda deste governo, mas sim no iní­cio de um novo para­digma polí­tico em que o Estado seja­mos todos e em que não seja pas­sado um che­que em branco por qua­tro anos a qual­quer governo, seja qual for a cor do mesmo.

Que este seja o iní­cio de uma época em que os gover­nos sejam obri­ga­dos a cum­prir as pro­mes­sas elei­to­rais e que sejam cons­ti­tu­ci­o­nal­mente impe­di­dos de agi­rem de outra forma;

Que este seja o iní­cio da demo­cra­cia se tor­nar digna desse nome e as gran­des deci­sões para o país sejam sem­pre toma­das em refe­rendo pelo povo;

Que este seja o iní­cio de uma nova cons­ci­en­ci­a­li­za­ção polí­tica de um povo que tem optado pela abs­ten­ção, abdi­cando da força da sua união;

Que este seja o iní­cio da espe­rança e que a des­culpa dos indi­ca­do­res eco­nó­mi­cos não sirva para trans­for­mar os pode­ro­sos em car­ras­cos de quem pre­cisa de tra­ba­lhar ardu­a­mente para ter uma vida digna;

Que este seja o iní­cio da cri­a­ção de um novo pro­pó­sito naci­o­nal de dig­ni­fi­car o seu povo e não de o amor­da­çar no medo do des­ca­la­bro dos ban­quei­ros e das gran­des empresas;

Que esteja seja o iní­cio de um pro­cesso incu­ba­dor de novos polí­ti­cos e diri­gen­tes que res­pei­tem os seus con­ci­da­dãos e que actuem com espí­rito de mis­são, hones­ti­dade e sen­tido de Estado;

Que este seja o iní­cio de um novo “Nós”;

Que este seja o iní­cio de uma revo­lu­ção de men­ta­li­da­des, pois só essa é a ver­da­deira revolução;

Ingé­nuo, pro­va­vel­mente, quiçá?