Maomé, Paquistão e Facebook

A página ori­gi­nal que pro­mo­via o “Every­body Draw Moham­med” Day foi banida pelo pró­prio Face­book na sequên­cia dos movi­men­tos leva­dos a cabo no Paquis­tão e que leva­ram ao boi­cote naquele país, por ordem judi­cial, de sites como o Face­book e o YouTube.

Claro que, entre­tanto, já sur­gi­ram outras pági­nas alter­na­ti­vas no Facebook.

O que não deixa de ser curi­osa é que a admi­nis­tra­ção do Face­book não baniu a página de opo­si­ção à página pro­mo­tora do “Every­body Draw Moham­med” Day, bem como nunca baniu mui­tas outras bas­tante mais sus­cep­tí­veis como, por exem­plo, uma página que apela à morte de Barack Obama! Que raio de cri­té­rios estes…

Fica aqui a minha “cola­gem” para o evento de ontem.

A falta de espanto

Feliz­mente, está a che­gar ao fim uma das sema­nas mais tris­tes dos últi­mos anos para Por­tu­gal. Nesta semana, para quem ainda tinha dúvi­das, foi fácil cons­ta­tar que:

  • O fute­bol e a reli­gião são duas for­ças motri­zes da nossa sociedade
  • O governo é opor­tu­nista e men­ti­roso ao dei­xar para esta semana –  em que quase toda a gente anda dis­traída a tirar areia dos olhos — os anún­cios de aumen­tos de impos­tos e cor­tes sala­ri­ais, ao con­trá­rio do que havia prometido
  • Nós come­mos e cala­mos e até parece que já nem custa a engolir
  • Con­ti­nu­a­mos iguais a nós pró­prios em tudo aquilo em que somos mesmo maus e não há maneira de con­se­guir­mos pro­te­ger as pou­cas coi­sas boas que temos
  • Temos uma janela de cerca de 15 dias para fin­gir que refi­la­mos; entre­tanto, chega o Cam­pe­o­nato do Mundo de fute­bol e depois as férias, e depois o regresso às aulas e depois já é Natal outra vez e fica tudo em paz!

O mais espan­toso é que já nin­guém se espanta que assim seja… Viva Portugal!

O incómodo e a desilusão

Fin­gir que não me sinto inco­mo­dado com todo o ala­rido feito à volta da visita do Papa não faria sen­tido nenhum. É claro que me sinto inco­mo­dado! E muito…

Mas, o que me inco­moda não é nem a sua pre­sença, nem as reac­ções orgás­mi­cas daque­les que o ido­la­tram. Não, nada disso! Fico inco­mo­dado — isso, sim — com a faci­li­dade com que a classe polí­tica naci­o­nal manda à fava a Cons­ti­tui­ção da Repú­blica Por­tu­guesa, desde Pre­si­den­tes de Câmara, pas­sando por Pri­meiro Minis­tro até ao Pre­si­dente da Repú­blica, tudo em nome de um popu­lismo fácil, saloio e inconsequente.

Que desi­lu­são! Assis­tir em 2010 a este fenó­meno de pro­pa­ganda hipó­crita no meu país, com feri­a­dos absur­dos rebap­ti­za­dos de tole­rân­cia de ponto, com cam­pa­nhas de evan­ge­li­za­ção nas prin­ci­pais arté­rias da cidade de Lis­boa, com uma imprensa bolo­renta que ali­nha no show e nada ques­ti­ona, com o enca­rar tudo isto com a maior das pas­si­vi­da­des… sinto, pela pri­meira vez em toda a minha vida, não ver­go­nha de ser por­tu­guês, mas ver­go­nha de que exis­tam tan­tos por­tu­gue­ses a per­mi­tir que tudo isto acon­teça, sem pes­ta­ne­ja­rem, como se tudo fosse nor­mal. Saloios e mari­cas, é o que vocês são…

Tenho um amargo sabor na boca… É o sabor de sen­tir que não adi­anta aca­bar com fas­cis­mos, con­ser­va­do­ris­mos, tota­li­ta­ris­mos, ili­te­ra­cia e igno­rân­cia no país sem que, pri­meiro, se tire tudo isso de den­tro das pessoas.

Pela minha parte, acabou-se. Con­si­dero que a Cons­ti­tui­ção tem sido des­res­pei­tada com todo este fol­clore e, como tal, sinto-me no direito de mudar de ati­tude em rela­ção à defesa da lai­ci­dade do Estado. Acabaram-se as gen­ti­le­zas, os diá­lo­gos pos­sí­veis e os ver­ni­zes poli­ti­ca­mente cor­rec­tos. Não é num país de idó­la­tras men­te­cap­tos que eu quero que as minhas filhas cresçam.

Grupo do Facebook dedica foto de perfil ao Papa

Pela pri­meira vez criei um grupo no Facebook:

Enquanto o Papa esti­ver em Por­tu­gal, a minha foto de per­fil é-lhe total­mente dedicada

Este é um grupo de pro­testo con­tra as mor­do­mias com que os órgãos de sobe­ra­nia naci­o­nais brin­dam aquele que, para além do chefe de estado do Vati­cano, também é:

- Chefe máximo de uma orga­ni­za­ção obs­cu­ran­tista
– Um dos prin­ci­pais res­pon­sá­veis nas últi­mas déca­das pelo enca­po­ta­mento de cri­mes de pedo­fi­lia na Igreja Cató­lica em todo o mundo
– Res­pon­sá­vel máximo pela con­ti­nu­a­ção de poli­ti­cas de desin­for­ma­ção con­tra o uso do pre­ser­va­tivo em África, con­tri­buindo para a dis­se­mi­na­ção da SIDA naquele con­ti­nente
– Repre­sen­tante de uma men­ta­li­dade anti-cientifica que tanto tem con­tri­buído para a estag­na­ção civi­li­za­ci­o­nal ao longo da história

Os nosso gover­nan­tes, lamen­ta­vel­mente, não con­se­guem resis­tir ao popu­lismo de não sepa­ra­rem a recep­ção ao chefe de estado do Vati­cano da sub­mis­são saloia e ter­ceiro mun­dista a um homem que repre­senta muito do pior da humanidade.

Como forma de pro­testo, até o Papa aban­do­nar o ter­ri­tó­rio por­tu­guês, a minha foto de per­fil é um preservativo.

Feira do Livro 2010

Se é ver­dade que o orça­mento não per­mi­tia gran­des aven­tu­ras, tam­bém é ver­dade que não encon­trei mui­tas sur­pre­sas nem gran­des moti­vos de inte­resse que me levas­sem a entu­si­as­mar ou a per­der a cabeça.

Assim, este ano a lista reduziu-se a:

  • Assim na Terra como no Céu, Clara Pinto Correia/José Pedro Sousa Dias
  • Por quem os sinos dobram, Ernest Hemingway
  • O mito da mono­ga­mia, David P. Barash/Judith Eve Lipton

Por­que tenho sau­da­des de ler fic­ção, vou come­çar por Hemingway.