Carta aberta à Direcção da AAP

Exmo. Sr. Pre­si­dente da Direc­ção da Asso­ci­a­ção Ateísta Por­tu­guesa,
Caro Car­los Esperança,

Completam-se hoje seis meses desde a data da 1ª Assem­bleia Geral da Asso­ci­a­ção Ateísta Por­tu­guesa (AAP), acto público no qual os pre­sen­tes Órgãos Soci­ais foram demo­cra­ti­ca­mente elei­tos e legitimados.

O entu­si­asmo com que me inseri neste pro­jecto pre­via, tal­vez inge­nu­a­mente, que a AAP viesse a fun­ci­o­nar como um estí­mulo adi­ci­o­nal para todos os que con­si­de­ram impor­tante alguma, por muito pequena que seja, mili­tân­cia ou acti­vismo nas cau­sas que impor­tam para quem se afirma ateu. Espe­rava que a AAP con­se­guisse ser um pólo dina­mi­za­dor das diver­sas acti­vi­da­des ateís­tas que, aqui e ali, se vão mani­fes­tando por esse país fora. Espe­rava que a AAP con­se­guisse fazer acon­te­ce­rem coisas…

Con­tudo, pas­sa­dos estes seis meses, cons­tato que a AAP mantém-se enver­go­nha­da­mente a rea­gir e não a actuar; mantém-se na expec­ta­tiva, à espera de uma opor­tu­ni­dade para um breve tempo de antena em qual­quer órgão de comu­ni­ca­ção social. Sem dúvida que esses tem­pos de antena são pre­ci­o­sos mas, assim o sinto, são mani­fes­ta­mente insu­fi­ci­en­tes para que neles resulte toda a acti­vi­dade desta associação.

A AAP, con­forme já tive opor­tu­ni­dade de afir­mar em reu­nião ofi­ci­osa da Direc­ção, pre­cisa de fazer acon­te­ce­rem coi­sas. Esta direc­ção pre­cisa de jus­ti­fi­car aos seus asso­ci­a­dos que a con­fi­ança nela depo­si­tada não irá sair defrau­dada e que a sua acti­vi­dade não se irá limi­tar a um mero exer­cí­cio de pro­ve­do­ria reli­gi­osa da soci­e­dade por­tu­guesa. Não chega apon­tar o dedo às falhas das reli­giões, às ilu­sões dos cren­tes ou às mor­do­mias do clero. É obri­ga­ção desta asso­ci­a­ção ter uma abor­da­gem posi­tiva do ateísmo e demonstrá-lo à soci­e­dade por­tu­guesa, quer seja atra­vés de actos públi­cos de pro­xi­mi­dade, quer seja atra­vés da orga­ni­za­ção e par­ti­ci­pa­ção em deba­tes, publi­ca­ção de livros, etc.

Infe­liz­mente, não vejo nesta direc­ção von­tade, ou melhor ainda, capa­ci­dade para actuar dessa forma. Se essa von­tade ou capa­ci­dade exis­tem, esbar­ram no desejo cole­gial de a todos que­rer agra­dar. Espero, sin­ce­ra­mente, que no futuro as alge­mas poli­ti­ca­mente cor­rec­tas de uma direc­ção cole­gial sejam subs­ti­tuí­das por deci­sões cla­ras vota­das por mai­o­ria. Espero, sin­ce­ra­mente, que no futuro se tenha menos medo de errar, agindo. Por enquanto, ape­nas sinto receio que se firam sus­cep­ti­bi­li­da­des e não se age.

Assim, e pelo facto de por razões pro­fis­si­o­nais não poder estar tão dis­po­ní­vel quanto seria neces­sá­rio para ten­tar alte­rar o rumo desta Direc­ção enquanto seu mem­bro, apre­sento a V. Exa. a minha demis­são de 2º Vogal da mesma com efei­tos ime­di­a­tos. Espero que com a minha saída alguém com maior dis­po­ni­bi­li­dade possa aju­dar a AAP a ir de encon­tro às minhas expec­ta­ti­vas. Manter-me-ei dis­po­ní­vel para cola­bo­rar com a AAP em tudo o que esti­ver ao meu alcance e sem­pre que a minha dis­po­ni­bi­li­dade o permitir.

Envio esta carta em regime de carta aberta uma vez que con­si­dero impor­tante que todos os asso­ci­a­dos conhe­çam as razões da apre­sen­ta­ção da minha demis­são. Agra­deço, pois, que seja publi­cada em qual­quer dos órgãos da AAP (sítio pró­prio ou Diá­rio Ateísta) ou, como alter­na­tiva, que seja envi­ada por email a todos os asso­ci­a­dos. Pela minha parte, irei publicá-la nos blo­gues onde habi­tu­al­mente escrevo.

Sem outro assunto, com ele­vada estima e consideração,

Hel­der Sanches

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