Há quem compare a dedicação, admiração e mesmo paixão de algumas pessoas a Deus com o amor cego de um adolescente pela sua última paixão, quando as hormonas turvam a visão e o discernimento. Da mesma forma que parece impossível chamar à razão o adolescente para os falsos atributos da sua amada ou para o risco potencial de um futuro pouco promissor junto desta, também parece ser tarefa inglória tentar clarear a visão dos crentes relativamente ao seu objecto de paixão.

Que centros de prazer serão estimulados pela dedicação a um ser hipotético e invisível? De onde virá a sensação de conforto transmitida por tal dedicação? Não será, certamente, pelos resultados obtidos. Não há registos de que os crentes sejam mais felizes que os não crentes, que vivam mais ou melhor, enfim, que conduzam a vida com maior dignidade ou virtude, o que quer que isso possa significar.

Estaremos, então, numa encruzilhada insolúvel em que nos resta apenas observar a entrega doentia, embora voluntária, a uma paixão sem futuro? Terá Deus o papel da jovem libidinosa e o crente o papel de adolescente portador de hormonas em ebulição? Se assim for, apenas nos resta esperar pelo amadurecimento da personalidade colectiva da humanidade e aguardar que os impulsos hormonais regridam, cedendo espaço à razoabilidade e à ponderação.