Cepticismo, milagres e ciência

Michael Sher­mer, durante as pales­tras “TED Talks”, em Feve­reiro de 2006, esclarece-nos, com uma sim­pli­ci­dade e cla­reza inve­já­veis, o que não é ciência.

Repleto de exem­plos mag­ní­fi­cos, este vídeo cer­ta­mente encan­tará todos aque­les que par­ti­lham uma pos­tura cép­tica em rela­ção às pseudo-ciências que tanto abun­dam nos meios de divul­ga­ção da actu­a­li­dade. Em 13 minu­tos ape­nas, Sher­mer con­se­gue des­truir alguns dos mais conhe­ci­dos “fenó­me­nos” que têm inva­dido as pági­nas dos jor­nais nas últi­mas décadas.

Uma cha­mada de aten­ção para um exce­lente car­toon que apa­rece logo nos pri­mei­ros minu­tos do vídeo. Para quem qui­ser apre­ciar com maior tran­qui­li­dade, é só fazer scroll até ao final da página.

We band of brothers

Gos­tei tanto deste texto do Ricardo Sil­ves­tre no Por­tal Ateu que passo a colocá-lo aqui na ínte­gra com a devida vénia:

From this day to the ending of the world,
But we in it shall be remem­be­red–
We few, we happy few, we band of brothers;
For he to-day that sheds his blood with me
Shall be my brother; be he ne’er so vile,
(Sha­kes­pe­are, Henry V)

Este fim-de-semana esti­ve­rem jun­tas 5 pes­soas que acon­tece serem ateístas.

Se não fosse essa filo­so­fia de vida, muito pos­si­vel­mente nunca se teriam encon­trado: teriam se calhar se cru­zado nas ruas de Coim­bra, ou do Porto, ou de Lis­boa, mas a pro­ba­bi­li­dade de não iden­ti­fi­ca­rem naquela pes­soa a con­di­ção que agora as apro­xima é muito elevada.

Mas assim não foi neste caso.

E assim se encon­tra­ram, assim se conhe­ce­ram pes­so­al­mente, assim cru­za­ram ideias e con­vic­ções, assim pas­sa­ram momen­tos de dis­trac­ção, assim pas­sa­ram momen­tos de fraternidade.

Jan­ta­ram jun­tos à mesma mesa, sentaram-se no mesmo espaço do Bairro Alto, encontraram-se num largo com uma igreja como cená­rio, se sen­ta­ram em ciclo de ami­zade e par­ti­lha à frente de uma mesa bem posta, bem guar­ne­cida, bem ofe­re­cida: com dedi­ca­ção e num pri­mor de bem receber.

E estes ateís­tas se conhe­ce­ram melhor: com mais ou menos cabelo, com rou­pas mais ou menos colo­ri­das, com mais ou menos perí­me­tro da cin­tura, com lin­gua­gens mais ou menos com­pli­ca­das, com fra­ses mais ou menos estapafúrdias.

Foram tro­ca­dos argu­men­tos sérios, foram con­ta­das his­tó­rias ina­cre­di­tá­veis, foram ditas bana­li­da­des, foram par­ti­lha­das cren­ças e filo­so­fias de vida.

Falou-se em música, em geo­lo­gia, em cinema, em arte, em ciên­cia. Falou-se de soci­e­dade, em gas­tro­no­mia, em cevada, e pasme-se (o hor­ror, o hor­ror!!) em karaoke.

E assim se des­pe­di­ram. Mais con­vic­tos que não estão sós. Con­ven­ci­dos que o ateísmo pode ser uma fonte de ins­pi­ra­ção, de encanto, de pro­pó­sito. Con­ten­tes por par­ti­ci­pa­rem num objec­tivo comum, e de pode­rem ter tido a opor­tu­ni­dade de pas­sar para além de um écran ou de uma voz num telefone.

Carpe diem, “band of brothers”.

* por Ricardo Sil­ves­tre no Por­tal Ateu

Carpe diem, Ricardo! Obrigado.

George Carlin morre aos 71

O come­di­ante George Car­lin mor­reu este domingo vítima de insu­fi­ci­ên­cia cardíaca.

Ven­ce­dor de um Grammy Award, Car­lin ficou conhe­cido pelo seus exa­ge­ros na vida e no palco. Com um humor con­tun­dente onde expu­nha as con­tra­di­ções da soci­e­dade com uma irre­ve­rên­cia avas­sa­la­dora, Car­lin é uma das mai­o­res influên­cias para as novas gera­ções de come­di­an­tes de stand-up.

São vários os apon­ta­men­tos de George Car­lin rela­ci­o­na­dos com a cri­tica reli­gi­osa. Nes­tes apon­ta­men­tos — como em todos os outros — o come­di­ante não se limi­tava a fazer-nos rir: obrigava-nos a pen­sar. Esse, tal­vez, fosse o seu grande mérito.

Outras refe­rên­cia a George Car­lin neste blog

George Car­lin no YouTube

George Car­lin: site oficial

Oh, Amor, não me mataste o desejo

Há quem com­pare a dedi­ca­ção, admi­ra­ção e mesmo pai­xão de algu­mas pes­soas a Deus com o amor cego de um ado­les­cente pela sua última pai­xão, quando as hor­mo­nas tur­vam a visão e o dis­cer­ni­mento. Da mesma forma que parece impos­sí­vel cha­mar à razão o ado­les­cente para os fal­sos atri­bu­tos da sua amada ou para o risco poten­cial de um futuro pouco pro­mis­sor junto desta, tam­bém parece ser tarefa ingló­ria ten­tar cla­rear a visão dos cren­tes rela­ti­va­mente ao seu objecto de paixão.

Que cen­tros de pra­zer serão esti­mu­la­dos pela dedi­ca­ção a um ser hipo­té­tico e invi­sí­vel? De onde virá a sen­sa­ção de con­forto trans­mi­tida por tal dedi­ca­ção? Não será, cer­ta­mente, pelos resul­ta­dos obti­dos. Não há regis­tos de que os cren­tes sejam mais feli­zes que os não cren­tes, que vivam mais ou melhor, enfim, que con­du­zam a vida com maior dig­ni­dade ou vir­tude, o que quer que isso possa significar.

Esta­re­mos, então, numa encru­zi­lhada inso­lú­vel em que nos resta ape­nas obser­var a entrega doen­tia, embora volun­tá­ria, a uma pai­xão sem futuro? Terá Deus o papel da jovem libi­di­nosa e o crente o papel de ado­les­cente por­ta­dor de hor­mo­nas em ebu­li­ção? Se assim for, ape­nas nos resta espe­rar pelo ama­du­re­ci­mento da per­so­na­li­dade colec­tiva da huma­ni­dade e aguar­dar que os impul­sos hor­mo­nais regri­dam, cedendo espaço à razo­a­bi­li­dade e à ponderação.

O que separa um ateu de um crente

De uma forma mini­ma­lista, pode­ria dizer-se que o que separa um ateu de um crente é ape­nas o facto de se acre­di­tar ou não em deus(es). Só que essa pequena (grande) dife­rença arrasta con­sigo um vari­a­dís­simo rol de pos­tu­ras diver­gen­tes rela­ti­va­mente à forma de enca­rar a vida.

Antes de mais, o “um ateu” do título sou eu e não outro qual­quer; por­tanto, o título tam­bém pode­ria ser “O que me separa dos cren­tes” mas, como have­rão mais ateus a par­ti­lhar pelo menos algu­mas das minhas razões, optei por este titulo. Por outro lado, o “um crente” do título não é nin­guém em par­ti­cu­lar, de nenhuma reli­gião ou crença espe­cí­fica; é pos­sí­vel — e até pro­vá­vel — que a mai­o­ria dos cren­tes não se reve­jam em todas as dife­ren­ças apon­ta­das. Mas, mesmo cor­rendo o risco de uma gene­ra­li­za­ção exa­ge­rada, parece-me inte­res­sante a aná­lise do que nos separa.

A ordem pela qual os pon­tos são apre­sen­ta­dos é total­mente irrelevante.

Noção do Sagrado — Esta noção é tão ou mais impor­tante para alguns cren­tes do que a(s) própria(s) entidade(s) divina(s). É o reco­nhe­ci­mento comum e colec­tivo do Sagrado que imprime nos gru­pos de cren­tes o sen­ti­mento de uni­dade social, a iden­ti­fi­ca­ção colec­tiva. Mui­tos cren­tes não pra­ti­can­tes, embora des­li­ga­dos no seu dia a dia das ceri­mó­nias e dos ritu­ais, man­têm a Noção do Sagrado intacta. O Sagrado pode ser um objecto, um local, uma pes­soa ou até uma data que pela sua sim­bo­lo­gia divina ou pela sua rela­ção com o divino se encon­tra acima de qual­quer sus­peita, mere­cendo pro­funda vene­ra­ção e res­peito inques­ti­o­ná­vel. Para um ateu esta con­di­ção é absurda; afas­tado o con­ceito de divino, nem nada nem nin­guém pode mere­cer tais atri­bu­tos. O ateu terá, quanto muito, um leque de ideias e valo­res que con­si­de­rará basi­la­res para a cons­tru­ção de uma soci­e­dade justa; mas mesmo essas ideias e valo­res deve­rão ser con­ti­nu­a­mente ques­ti­o­na­das de forma a pude­rem ser rec­ti­fi­ca­das e melho­ra­das num pro­cesso ininterrupto.

Raci­o­na­lismo e Modelo de Rea­li­dade — Para um ateu, a única forma de enten­der o mundo é atra­vés da razão. Não é atra­vés de sen­sa­ções, reve­la­ções ou visões de qual­quer espé­cie, mas sim atra­vés do inte­lecto e de uma forma dedu­tiva. Para um crente, a razão não é sufi­ci­ente para a obten­ção do conhe­ci­mento do mundo. Para este, exis­tem ver­da­des inson­dá­veis, de um domí­nio meta­fi­sico, ape­nas alcan­çá­veis pela via reli­gi­osa. Separa-nos, por­tanto, não ape­nas o método, mas tam­bém as expec­ta­ti­vas, uma vez que para o crente a rea­li­dade abso­luta estará sem­pre para além do que a razão pode alcan­çar. Não são pre­ci­sos mui­tos conhe­ci­men­tos de his­tó­ria para nos aper­ce­ber­mos que o avanço do conhe­ci­mento cien­tí­fico tem impli­cado um decrés­cimo nas áreas outrora inte­gran­tes da tal rea­li­dade ape­nas alcan­çá­vel pela expe­ri­ên­cia religiosa.

Tole­rân­cia — A grande dife­rença aqui con­siste na faci­li­dade com que se uti­li­zam meca­nis­mos fúteis para defesa daquilo em que se acre­dita. Nenhuma reli­gião é tole­rante enquanto se sen­tir ofen­dida pelo facto de alguns dos seus ícones sagra­dos serem uti­li­za­dos por car­to­o­nis­tas, artis­tas plás­ti­cos porno ou rea­li­za­do­res de cinema polé­mi­cos. Um ateu pouco se importa que um artista crente dese­nhe uma cari­ca­tura de Char­les Darwin com corpo de chim­panzé. Tole­rân­cia não sig­ni­fica achar que todas as ideias são váli­das; sig­ni­fica, isso sim, reco­nhe­cer aos outros o direito de ter ou defen­der quais­quer ideias, mesmo as incor­rec­tas ou fal­sas. Quando as reli­giões não se des­mar­cam das des­co­ber­tas cien­ti­fi­cas que põem em causa as suas dou­tri­nas mile­na­res não estão a ser tole­ran­tes; estão, sim, a ser dema­go­gas. Caso con­trá­rio, a cola­gem à ciên­cia teria como con­sequên­cia a des­co­la­gem da doutrina.

Vida, Morte e Sen­tido de Exis­tên­cia — Tenho como razões pri­mor­di­ais para o sur­gi­mento do fenó­meno reli­gi­oso a ten­ta­tiva de expli­ca­ção da rea­li­dade e o recon­forto para a incóg­nita da morte. Para um crente, a expec­ta­tiva de que a sua exis­tên­cia não acaba com a morte, que se pro­longa para além desta, deverá ser uma ques­tão fun­da­men­tal. Seja pela pro­messa de uma outra rea­li­dade mais feliz, pelo receio de um cas­tigo supremo ou sim­ples­mente pela a azia pro­vo­cada pelo des­co­nhe­cido, não há dúvida que esta deverá ser uma maté­ria que cau­sará gran­des angús­tias a quem viver com tal credo. Para um ateu, nada disto faz sen­tido. Ima­gino o meu futuro após a minha morte da mesma forma que ima­gino o meu pas­sado antes do meu nas­ci­mento: nulo, isento de expe­ri­ên­cia ou de noção seja do que for. Resta-me ape­nas viver esta vida o melhor que puder. Para mim, a ques­tão filo­só­fica não é o “por­que vivo?” mas sim o “como vivo?”. É na res­posta a esta ques­tão que se pode encon­trar o sen­tido de existência.

Site da AAP já no ar

Aca­bei esta madru­gada a ins­ta­la­ção do site da AAP — Asso­ci­a­ção Ateísta Por­tu­guesa. Já o podem ver aqui.

Como todos os novos sites, irá sendo melho­rado com o tempo, acrescentando-lhe novos ser­vi­ços. Espero que gostem.

Mais três exoplanetas

Astró­no­mos euro­peus anun­ci­a­ram a des­co­berta de mais 3 exo­pla­ne­tas, desta feita em redor da estrela HD 40307.

Ao ritmo a que estes exo­pla­ne­tas estão ser des­co­ber­tos, qual­quer dia temos uma indús­tria à volta da actu­a­li­za­ção da equa­ção de Drake. Como sem­pre fui muito opti­mista em rela­ção à vida extra­ter­res­tre, encaro estas des­co­ber­tas com muita natu­ra­li­dade e boa disposição.

Mas, uma per­gunta se coloca: e Deus, pá, onde é que se encaixa nisto tudo?

O Meme Ateísta

Na blo­gos­fera ateísta em inglês come­çou a cir­cu­lar um “meme” com 10 per­gun­tas sobre ateísmo. Vou ten­tar espa­lhar o “meme” tam­bém em português.

Q1. Como defi­ni­rias “ateísmo”?
Na sua forma mais sim­ples, a ausên­cia de crença em deuses.

Q2. Tiveste uma edu­ca­ção reli­gi­osa? Se sim, de que tipo?
Não. Os meus pais fazem parte do grande clube dos “não pra­ti­can­tes” e tive a sorte, ainda muito novo, de conhe­cer algu­mas pes­soas que me esti­mu­la­ram a colo­car ques­tões em vez de encon­trar res­pos­tas fáceis.

Q3. Usando ape­nas uma pala­vra, como des­cre­ve­rias o “design inte­li­gente”?
Hilariante.

Q4. Que campo cien­tí­fico mais te inte­ressa?
Macro inte­resse: via­gens espaciais

Micro inte­resse: o estudo do genoma humano

Q5. Se pudes­ses mudar algo na “comu­ni­dade ateísta”, o que seria?

Quase tudo. Penso que a mai­o­ria dos ateus não sabem dis­tin­guir as pes­soas das suas cren­ças e se con­cen­tram dema­si­ado na cri­tica fácil em pre­juízo de um maior inves­ti­mento na divul­ga­ção do raci­o­na­lismo e humanismo.

Q6. Se um filho teu te dis­sesse que tinha optado pela vida cle­ri­cal, qual seria a tua pri­meira res­posta?
Deve ser 1 de Abril!

Q7. Qual o teu argu­mento teís­tico favo­rito e como é que o refu­tas?
Não tenho um argu­mento favo­rito, mas reco­nheço que há uns muito engraçados.

Q8. Qual o teu ponto de vista mais con­tro­verso (na pers­pec­tiva dos outros ateus)?
Que pas­sar a vida a dizer mal das reli­giões e dos cren­tes é abso­lu­ta­mente infru­tí­fero para o ateísmo.

Q9. Dos “qua­tro cava­lei­ros do ateísmo” (Daw­kins, Den­nett, Hit­chens and Har­ris) qual é o teu pre­fe­rido e porquê?
Não tenho um favo­rito, mas Hit­chens é segu­ra­mente alguém com quem não sim­pa­tizo.

Q10. Se pudes­ses con­ven­cer ape­nas um teísta a aban­do­nar as suas cren­ças, quem seria?

Nin­guém! Não me com­pete con­ven­cer nin­guém a mudar as suas cren­ças. Se, atra­vés do estí­mulo ao pen­sa­mento crí­tico, algu­mas pes­soas revi­rem as suas posi­ções, tanto melhor para elas.

Nomeia outros 3 blogs para espa­lha­rem o meme:

1. Que Treta!
2. Ran­dom Pre­ci­sion
3. Filo­so­fia Ateísta