Os aplausos dos distraidos

Ainda no res­caldo do pro­grama “As Tar­des da Júlia”, tive uma con­versa mais aca­lo­rada com alguém que muito res­peito, me é muito que­rida e se enqua­dra no leque  — e que leque — dos cató­li­cos não pra­ti­can­tes. Tudo come­çou a pro­pó­sito de eu ter admi­tido que uma frase do Ricardo Sil­ves­tre pode­ria ter sido evi­tá­vel, embora ele tivesse razões para afir­mar o que afir­mou, uma vez que hos­ti­li­zou um pouco a assis­tên­cia. Refiro-me à pas­sa­gem em que a assis­tên­cia aplaude entu­si­as­ti­ca­mente uma argu­men­ta­ção do padre pre­sente no pro­grama e em que o Ricardo se sai com um eston­te­ante “as pes­soas aplau­dem por­que são igno­ran­tes”. Seguiu-se, claro está, um leque de apu­pos vin­dos da bancada.

Ora, embora me pareça que o Ricardo até tinha razão para pro­du­zir tal afir­ma­ção, acho que deve­ria ter sido mais “poli­ti­ca­mente cor­rec­to” e ter tido, even­tu­al­mente, um com­por­ta­mento mais comer­cial e — quiçá? — mais cínico de forma a não hos­ti­li­zar tanto a assistência.

Nesta minha con­versa, fomos logo acu­sa­dos (eu e o Ricardo, uma vez que nesta maté­ria e para a minha inter­lo­cu­tora somos iguais) de arro­gân­cia e de nos com­por­tar­mos como os reli­gi­o­sos extre­mis­tas que não res­pei­tam as ideias dos outros. Ora, está-se mesmo a ver…

Antes de mais, onde é que está escrito que eu tenho que res­pei­tar as ideias dos outros? O que eu tenho que res­pei­tar, isso sim, é o direito dos outros terem ideias dife­ren­tes das minhas. E, mesmo nesse caso, exis­tem ideias que não são sequer legal­mente res­pei­ta­das. Qual é, por­tanto, o pro­blema de eu não res­pei­tar as ideias dos outros? Alguém fica­ria cho­cado se eu não res­pei­tasse as ideias de um nazi, de um racista ou de um xenó­fobo? Estas são ideias não res­pei­tá­veis e, a meu ver, muito bem.

Por­que é que a reli­gião tem que con­ti­nuar a ter ele pró­pria um altar no sis­tema de res­pei­ta­bi­li­dade social? Por­que é que posso cri­ti­car um minis­tro, uma poli­tica gover­na­men­tal e até o governo e não o posso fazer em rela­ção à religião?

Não sou dos que pen­sam que todos os males da his­tó­ria da huma­ni­dade têm ori­gem na reli­gião. His­to­ri­ca­mente, todas as reli­giões fize­ram sen­tido e, em alguns casos, admito até que tenham con­tri­buido para a coe­são das soci­e­da­des em que se inse­ri­ram. Con­tudo, já pas­sou muito tempo desde o Renas­ci­mento, do sur­gi­mento dos movi­men­tos Huma­nis­tas, do Ilu­mi­nismo, da revo­lu­ção indus­trial e do esboço ini­cial da teo­ria da evo­lu­ção de Darwin. Por isso, chega de vas­sa­la­gem a um sis­tema de cren­ças da idade do bronze impreg­nado de ritu­ais medievais.

A Huma­ni­dade cres­ceu em conhe­ci­mento ao longo de todos estes sécu­los. Os ser­mões pre­vi­sí­veis só podem mere­cer os aplau­sos daque­les a que o Ricardo cha­mou de igno­ran­tes, mas que eu pre­firo cha­mar de… dis­trai­dos. Deixem-me ser cínico, vá lá!

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Uma Resposta a Os aplausos dos distraidos

  1. Pedro Amaral Couto diz:

    O site tem sofrido mutações!

    Tec­ni­ca­mente é ver­dade que a maior parte das pes­soas não sabe o que está na Bíblia, mas dizer logo que são igno­ran­tes ou que “não sabem nada para além do que está a ser dito” leva, obvi­a­mente, a más-interpretações — como se tivesse a cha­mar as pes­soas de pouco inte­li­gen­tes. Se esti­vesse a dis­cu­tir com um Hitler que é apoi­ado pelo povo, e dizer ao povo que não sabe mais nada para além do que é dis­cu­tido, have­ria a mesma reac­ção. E a pala­vra de um padre é sem­pre valo­ri­zada, mesmo que diga coi­sas sem nexo. Desde que não diga que gosta de apal­par um rapa­zi­nho logo pela manhã, ou algo assim, encontra-se sem­pre numa posi­ção favo­rá­vel. E se admi­tir que a Bíblia está reche­ada de coi­sas hor­rí­veis, mas que ser­vem ape­nas para uma lição qual­quer, ainda melhor parece. Na ver­dade rela­ti­vi­zar e sub­jec­ti­var o que está escrito é de bom tom — na ver­dade, se acre­di­tam que a Bíblia é a Pala­vra de Deus, pre­firo que pen­sem assim -, mas se eu qui­ser dis­cu­tir sobre a Bíblia deve-se acei­tar que seja­mos mais objec­ti­vos, mesmo tendo de pro­cu­rar conhe­cer a His­tó­ria para per­ce­ber como enten­diam o que estava escrito. Senão temos um a con­tar as suas opi­niões sobre ela como se fosse um guia moral, outro que diz que os povos que escre­ve­ram eram de outros tem­pos e outro a dizer que tem con­teúdo imo­ral. O mais român­tico é que fica melhor visto, por­que real­mente quem não sabe o que está lá escrito tem uma ideia român­tica sobre a Bíblia. Mas pen­sando bem, tal­vez numa dis­cus­são entre um astró­nomo e um astró­logo o resul­tado seria seme­lhante. O astró­nomo não seria o român­tico — seria o arro­gante, o extremista.

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