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Jesus e a frequência do diálogo

5 Fevereiro, 2008

Existem matérias em que facilmente se pode perder a objectividade. A religião (e o ateísmo) são excelentes exemplos disso mesmo.

Uma das matérias preferidas de discussão entre ateus e cristãos é a dúvida sobre a personagem histórica que terá sido (ou não) Jesus. É, sem dúvida, um assunto fascinante, seja qual for a perspectiva. Terá Jesus realmente existido? Terá sido um mero produto de Paulo de Tarso? Terá sido o resultado das expectativas criadas, por um povo humilhado, nas profecias judaicas? Terá sido, porque não, um produto engenhoso dele próprio e dos seus seguidores? Enfim, as questões são imensas, as respostas pouco conclusivas.

Trata-se de um assunto polémico, sem dúvida, capaz de inflamar as mais tranquilas das discussões. No entanto, parece-me pouco importante - do ponto de vista religioso, não do ponto de vista histórico - a questão da veracidade da personagem Jesus. Enquanto ateus, não me parece que devamos esperar que os cristãos estejam sequer preparados - mesmo os mais razoáveis - para admitir dúvidas nesta matéria. Por outro lado, o que está em causa, em última análise, não é a figura histórica de Jesus, antes sim, o conceito religioso do mesmo. E - desenganem-se - um pode perfeitamente viver sem o outro.

O fenómeno religioso não se sustenta nos mesmos princípios de racionalidade e de procura crítica da verdade, logo, o que para uns, enquanto ateus, seria suficiente para descartar a hipótese de Jesus, para outros é irrelevante, pois o conceito do imaginário, do sobrenatural e do sagrado fala mais alto. Isso transforma, muitas vezes, os diálogos em monólogos, o que, estou certo, não beneficiará em nada a procura da verdade.

Nesta matéria - como em muitas outras - não devemos esperar, confortavelmente, que seja o crente a “sintonizar” a nossa frequência; para que seja possível - sequer - a discussão, devemos esforçar-nos para que a mensagem possa ser interpretada por quem a receber. Este esforço, obviamente, terá que existir de parte a parte. Caso contrário, continuarão os crentes a falar para os crentes e os ateus para os ateus. E isso parece-me pouco interessante e deveras inconsequente.

Publicado a 22 de Janeiro de 2008 no Portal Ateu


Arquivado em Ateísmo, Religião |

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