Verdades, Popper e propaganda

Sem dúvida que está a ser muito inte­res­sante a dis­cus­são entre o Daniel Sil­ves­tre e o comen­ta­dor Ber­nardo no artigo “O diá­logo que deve ser pro­mo­vido“.

Con­cordo ple­na­mente que os diá­lo­gos devem ser sem­pre pro­mo­vi­dos. No entanto, quero cha­mar aqui a aten­ção para a urgên­cia que existe de , em cir­cuns­tân­cias deste tipo, se defi­ni­rem os pres­su­pos­tos antes de se desen­vol­ve­rem teo­rias e se defen­de­rem posi­ções. Refiro-me, claro está, à defi­ni­ção de deus; de que adi­anta um diá­logo se se deba­te­rem con­cei­tos dife­ren­tes ou se se uti­li­za­rem dife­ren­tes graus de espe­ci­fi­ci­dade sobre o objecto da dis­cus­são? Dessa forma, corre-se o risco de man­ter­mos um diá­logo sobre abs­trac­ções con­cei­tu­ais invá­li­das para o nosso interlocutor.

Por outro lado, gos­ta­ria de afir­mar peremp­to­ri­a­mente que dis­cordo do Ber­nardo na ques­tão da fal­se­a­bi­li­dade de deus. Não dis­cuto, obvi­a­mente, a sua infal­se­a­bi­li­dade à data; dis­cuto a pre­sun­ção de que será sem­pre assim. Ou seja, afir­mar que deus será sem­pre uma hipó­tese não fal­seá­vel é, em si mesmo, uma afir­ma­ção não fal­seá­vel! Em que fica­mos, então?

Con­ti­nue reading…

De cara lavada

Actu­a­li­zei o aspecto do blog. Não tinha pre­visto fazer esta alte­ra­ção, mas há já algum tempo que sen­tia neces­si­dade de ter uma coluna extra para poder colo­car outro tipo de infor­ma­ção, nome­a­da­mente ima­gens de sen­si­bi­li­za­ção para algu­mas cam­pa­nhas sobre assun­tos pelos quais me interesso.

Ainda tenho que dis­por melhor a infor­ma­ção nas colu­nas do lado direito, fal­tam alguns retoques.

Por outro lado, com o nas­ci­mento do Por­tal Ateu, cria-se uma opor­tu­ni­dade para con­cen­trar mais os arti­gos sobre ateísmo naquele site, o que liber­tará este blog para a abor­da­gem mais fre­quente a outras matérias.

Para já, espero que o novo visual seja do vosso agrado.

Em Manutenção

Volto den­tro de momen­tos, pro­va­vel­mente de cara lavada…

Entrevista no Portal Ateu

Para a segunda edi­ção do pod­cast do Por­tal Ateu, Ricardo Sil­ves­tre fez-me a entre­vista pos­sí­vel. Podem ouvi-la aqui.

Jesus e a frequência do diálogo

Exis­tem maté­rias em que facil­mente se pode per­der a objec­ti­vi­dade. A reli­gião (e o ateísmo) são exce­len­tes exem­plos disso mesmo.

Uma das maté­rias pre­fe­ri­das de dis­cus­são entre ateus e cris­tãos é a dúvida sobre a per­so­na­gem his­tó­rica que terá sido (ou não) Jesus. É, sem dúvida, um assunto fas­ci­nante, seja qual for a pers­pec­tiva. Terá Jesus real­mente exis­tido? Terá sido um mero pro­duto de Paulo de Tarso? Terá sido o resul­tado das expec­ta­ti­vas cri­a­das, por um povo humi­lhado, nas pro­fe­cias judai­cas? Terá sido, por­que não, um pro­duto enge­nhoso dele pró­prio e dos seus segui­do­res? Enfim, as ques­tões são imen­sas, as res­pos­tas pouco conclusivas.

Trata-se de um assunto polé­mico, sem dúvida, capaz de infla­mar as mais tran­qui­las das dis­cus­sões. No entanto, parece-me pouco impor­tante — do ponto de vista reli­gi­oso, não do ponto de vista his­tó­rico — a ques­tão da vera­ci­dade da per­so­na­gem Jesus. Enquanto ateus, não me parece que deva­mos espe­rar que os cris­tãos este­jam sequer pre­pa­ra­dos — mesmo os mais razoá­veis — para admi­tir dúvi­das nesta maté­ria. Por outro lado, o que está em causa, em última aná­lise, não é a figura his­tó­rica de Jesus, antes sim, o con­ceito reli­gi­oso do mesmo. E — desenganem-se — um pode per­fei­ta­mente viver sem o outro.

O fenó­meno reli­gi­oso não se sus­tenta nos mes­mos prin­cí­pios de raci­o­na­li­dade e de pro­cura crí­tica da ver­dade, logo, o que para uns, enquanto ateus, seria sufi­ci­ente para des­car­tar a hipó­tese de Jesus, para outros é irre­le­vante, pois o con­ceito do ima­gi­ná­rio, do sobre­na­tu­ral e do sagrado fala mais alto. Isso trans­forma, mui­tas vezes, os diá­lo­gos em monó­lo­gos, o que, estou certo, não bene­fi­ci­ará em nada a pro­cura da verdade.

Nesta maté­ria — como em mui­tas outras — não deve­mos espe­rar, con­for­ta­vel­mente, que seja o crente a “sin­to­ni­zar” a nossa frequên­cia; para que seja pos­sí­vel — sequer — a dis­cus­são, deve­mos esforçar-nos para que a men­sa­gem possa ser inter­pre­tada por quem a rece­ber. Este esforço, obvi­a­mente, terá que exis­tir de parte a parte. Caso con­trá­rio, con­ti­nu­a­rão os cren­tes a falar para os cren­tes e os ateus para os ateus. E isso parece-me pouco inte­res­sante e deve­ras inconsequente.

Publi­cado a 22 de Janeiro de 2008 no Por­tal Ateu