Na Theosfera do padre João António pode-se ler o seguinte texto:

QUEM É MAIS ATEU?

A superfície dá um tipo de resposta. A profundidade oferece outro.

Quem é mais ateu? O descrente que se assume? Ou o crente que se presume?

Não será que o ateísmo dos ateus, no fundo, é mais uma denúncia de muitos crentes em Deus do que uma negação do Deus dos crentes?

A leitura dos livros de Richard Dawkins e Michel Onfray tem-me feito pensar deveras e interrogar bastante.

Quando se contesta a presença pública da fé será que há um incómodo perante Deus ou um desencanto diante do contra-testemunho dos crentes?

E, desse modo, não poderá ser o ateísmo uma busca de autenticidade? Não poderão estar, portanto, muitos ateus mais próximos de Deus?

Não serão as suas perguntas mais consistentes que as nossas respostas?

Acho todo o texto muito interessante, embora a ideia de poder estar mais próximo de deus me deixe um bocado perplexo! Em relação à última questão acho fenomenal; Sempre achei que a resposta é um claro “Sim”.

Comentários

18 Respostas a “Quem é mais ateu?”

  1. Pedro Amaral Couto em 8 Novembro, 2007 20:36

    «Não será que o ateísmo dos ateus, no fundo, é mais uma denúncia de muitos crentes em Deus do que uma negação do Deus dos crentes?»
    Quando foi a última vez que travamos discussões com deístas, panteístas qualquer um que simplesmente acredita que existe um Deus?
    E quantas vezes crentes chatearam-nos no caminho só porque não somos crentes? As Testemunhas de Jeová ficam especadas de manhã à entrada da estação dos comboios para perguntar se “o jovem gosta de ler”.
    Haverá algum ateu a fazer proseletismo? “O jovem gosta de ler? Então guarde este panfleto que fala do «não deus» e pode pedir um estudo do «não há livro sagrado»”

    Foi um pequeno desabafo…

  2. Helder Sanches em 8 Novembro, 2007 20:46

    Desabafa à vontade.

    Prefiro que não surja essa moda. Já chegam os outros para nos chatearem ao domingo de manhã…

  3. Pedro em 8 Novembro, 2007 20:53

    A mim parece-me que o problema da presença pública da fé é quem a tem não se contenta com essa pertença.

    Teima em forçar os outros subjugarem-se a essa, a única e verdadeira, fé. Eis o perigo dessas fés, q provoca esse incómodo, pois fazem-se atrocidades baseadas na fé interior, que como é óbvio, é pessoal.

    Quando se tenta discutir logicamente factos contra alguém que baseia o seu raciocinio na fé, vai-se contra paredes de betão repetidamente. E é ver que em geral é aceitável que se substituam factos por fé. Quando se ensinam fantasias baseadas em fé de uns e não factos. é o desencanto de quem vê isso todos os dias, e o único pilar destas fés publicamente impostas é a fantasia.

    Falo por mim, mas não tenho nenhum grau de proximidade com este ou aquele deus. Aliás, à medida que vou conhecendo a realidade, deixo para trás cada vez mais ilusões.

    Só não percebi a ultima pergunta. As perguntas e respostas de quêm?

  4. Helder Sanches em 8 Novembro, 2007 21:25

    As perguntas dos ateus e as respostas do cristãos.

  5. Pedro em 8 Novembro, 2007 22:08

    então concordo consigo: “sim”

  6. Pedro Amaral Couto em 9 Novembro, 2007 18:14

    “Prefiro que não surja essa moda.”
    http://www.youtube.com/watch?v=sV-a1vmZ6y8

    Eu também prefiro que não. LOL

  7. João António (padre) em 10 Novembro, 2007 0:57

    «Não serão as suas perguntas mais consistentes que as nossas respostas?»
    Aqui estava-me a referir não ao campo das possibilidades, mas ao campo dos recursos. Tenho para mim que a descrença é, muitas vezes, «alimentada» pelo contra-testemunho dos crentes, sobretudo porque não há atenção às inquietações que emitem. Isto foi reconhecido pelo Concílio Vaticano II, na «Gaudium et Spes» e por um artigo do teólogo J. B. Metz, curiosamente datado de 1965 (ano de encerramento do Concílio). Dizia tal texto que a fé acaba por estar implicada na descrença e a descrença acaba por estar implicada na fé.
    Eu respeito, obviamente, todas as posições. Aceito que um ateu diga não querer estar mais perto de Deus, mas não posso deixar de pensar que Deus queira estar perto do Homem, de todo o Homem.
    É neste sentido que faço minha a máxima que uns atribuem a Cícero e outros a Séneca: «Res sacra Homo» (O Homem é uma coisa sagrada). Daí que escreva Homem com maiúscula.
    Em primeira instância, o ateísmo é sobretudo negação do teísmo, ou seja, de um determinado discurso sobre a divindade. Suecede que nem sempre o discurso coincide com aquilo (com Aquele) em que incide.
    Por outro lado, o ateísmo acaba por ser tendencialmente reactivo. É uma reacção perante o religioso, mas intervém naquilo que diz não existir. Miguel Torga (que se dizia não crente) escreveu no volume 14 do Diário: «Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de O negar, mas nunca a força de O esquecer».
    Este é um dos tópicos que nem livros como os de Sam Harris, Michel Onfray ou Richard Dawkins conseguem esbater. Estão sempre a remeter-nos para Deus.
    Penso que qualquer posição neste campo tem de ser marcada pela abertura tanto mais que, como dizia Zubiri, o Homem é uma essência aberta.
    E, para terminar, gostaria de deixar uma palavra de Hans Kung (que, como sabe, está longe de ser um teólogo alinhado com Roma): «Todas as objecções podem tornar questionável a existência de Deus, mas nenhuma torna inquestionável a sua inexistência».
    Muita paz. Que Deus (em Quem acredito do fundo do meu ser) o abençoe. Até porque Deus não existe só para mim, nem para os crentes. Existe para todos!

  8. Pedro em 10 Novembro, 2007 10:29

    Acho que está enganado. O que me impede de esquecer dos deuses é a presença da religão nos que me rodeiam e fazem da sua fé interior uma questão publica. Á sempre alguem que teima em vir evangelizar-me. Enquanto houver pregadores/missionários com a ideia que os outros são todos uns infiéis ao(s) seu(s) verdadeiro(s) deus(es), é complicado falar com alguém religioso sem que este meta deus ao barulho.

    É como tentar explicar o veganismo a um católico. Vai sempre dar em deus. Mas não por meu raciocínio. É sempre uma desculpa pra fazer mal aos outros seres vivos.

    Em relação a R.Dawkins, acho que também escolheu mal a palavra “remeter-nos”. O que ele faz é alertar para o perigo das religiões, exactamente o contrário.

    A Helder sanches, peço desculpa por tar a usar esta caixa de comentários pra responder ao João António.

  9. Helder Sanches em 10 Novembro, 2007 15:50

    Não tens que pedir desculpa. Os comentários servem mesmo para trocar-mos os nossos pontos de vista.

    Respondendo ao João António, diria que existe um grande obstáculo no esclarecimento da existência de deus. O processo pelo qual eu chego ao meu ateísmo não utiliza as mesmas premissas que o crente utiliza.

    Como já referi várias vezes, o direito à fé religiosa está incluída nos direitos individuais; quando alguém assume uma convicção deve de estar preparado, antes de mais, para que outros assumam também - em igual liberdade - convicções diferentes.

    O Jõao António diz que sente deus todos os dias em todos os lugares. E depois? O que é que isso prova? Que o João António tem a capacidade de sentir? Sim. Que deus existe? Não!

    Mas, conforme já disse várias vezes, e embora ache que o ónus da prova está do lado dos crentes, não espero encontrar nenhuma prova em nenhum lado da existência ou inexistência de deus. Enquanto a primeira encontra as suas justificações na fé, a segunda baseia-se na lógica, no raciocínio. São incompatíveis.

    Obrigado ao João António pela visita.

  10. on em 11 Novembro, 2007 12:24

    Caro Helder,

    acabei por voltar agora à questão do ultimo debate interblogues. O livro do Dennett dá uma resposta Salomónica àsua questão.

  11. Xiquinho em 11 Novembro, 2007 15:21

    É curioso que eu farto-me de visitar este blog e nunca me agradeceram a visita…
    ou pecados já são tantos que andas à procura de confessor?

  12. Helder Sanches em 11 Novembro, 2007 19:46

    És um invejoso…

  13. Pedro Amaral Couto em 11 Novembro, 2007 21:14

    João António,
    «Aceito que um ateu diga não querer estar mais perto de Deus, mas não posso deixar de pensar que Deus queira estar perto do Homem, de todo o Homem.»
    Há uma coisa que desejo esclarecer: os ateus não acreditam que existe um deus, tal como acreditam que não existe um Pai Natal, fadas ou papões. Não é questão de querer ou não querer. Dizer a um ateu que Deus quer estar perto do homem, é o equivalente a dizer que o Pai Natal quer dar presentes.

    «Em primeira instância, o ateísmo é sobretudo negação do teísmo, ou seja, de um determinado discurso sobre a divindade.»
    O teísmo não é apenas a crença na existência de deuses. Os deístas e panteístas não são teístas, e, considerando a definição lata de ateísmo, são ateus.

    «Por outro lado, o ateísmo acaba por ser tendencialmente reactivo. É uma reacção perante o religioso, mas intervém naquilo que diz não existir.»
    A maioria dos ateus são passivos, sem se interessarem por religião ou política. Além disso nas críticas que os ateus em geral fazem, a questão não está na crença de um deus em si.

    Já me disseram várias vezes algo como: “tenho a certeza absoluta, mas não pensam provas”. Se apenas a fé leva a crer num deus, então essa crença tem fundações muito frágeis.

  14. Diogo em 15 Novembro, 2007 15:05

    O Pedro disse: “… É complicado falar com alguém religioso sem que este meta deus ao barulho….”

    Acho particularmente interessante quando dizes isto… Principalmente quando estás num Blog de alguém que é Ateu, mas que por livre vontade cria um blog para falar(mal ou bem) de Deus e criticar a sua existência.

  15. Diogo em 15 Novembro, 2007 15:06

    … Até por acho normal que um religioso fala de religião… O que já não acho muito normal é um ateu falar de Deus.

  16. Helder Sanches em 15 Novembro, 2007 19:19

    O que eu não acho normal mesmo são duas coisas:

    - Primeiro, que alguém acredite, DE FACTO, em qualquer deus

    - Segundo, que alguém que diz acreditar em deus perder tempo num blog ateu sem dizer nada de interessante

    Estas coisas é que eu não acho nada normal.

  17. a.branco em 19 Novembro, 2007 19:59

    …Há muito que anseio por “falar” deste assunto, sem nunca ter encontrado o local conveniente.

    Parece-me que o encontrei. No entanto, por ser um TEMA tão vasto e profundo, pelas limitaçõs pessoais e por achar que o processo de apreenção de conhecimentos é mais eficaz quando lento, vou optar por deixar umas ideias para que os interessados possam, com tempo digerir e discutir.

    À luz das religiôes sou ateu mas sei que deus existe.

    Mas deus não é Aquele Senhor, branco, velhote, com ar piedoso que muitos vêem por força das imagens que desde pequenos nos impingem. Não é “físico”, para que possamos ir para perto, ou estar longe dele; deus não é exterior às pessoas,deus é o estado de espírito de cada um de nós. Ou melhor, é o conjunto de conceitos e virtudes que cada um de nós conseguiu apreender e juntar dentro de si, que nos enriquece e faz com que saibamos distnguir o que é bom do que é mau e nos permite actuar, ao longo da nossa vida, de acordo com esses pricípios.

    À medida que cada vez mais pessoas, estiverem imbuídas dessa vontade, podemos dizer que todas elas estão de acordo com deus; e isto não tem nada a ver com as religiões que pretendem ter a exclusividade dos bons princípios, da bondade, da piedade, etc.

    Por hoje fico por aqui.

  18. Victor em 3 Janeiro, 2008 4:05

    Bom, aproveitando as palavras do amigo ateu aí em cima a.branco, depende de que Deus temos falado aqui neste tópico, Deus nesse sentido pode ser entendido sob vários aspectos, eu entendo como aquilo que domina, que preenche a maior parte de nossa breve existência aqui na Terra, ou será que aqui todos vivem equilibradamente a vida, sem alguma preferência que lhes faça dedicar mais tempo, esforços e outros sacrifícios de sua vida para ter aquilo que acreditam ser o melhor?

    Assim, um Deus pode ser o dinheiro, que muitos vivem para.

    Para outros, o vício, cigarro, drogas, sexo.

    Alguns, o próprio ego, viver para si, satisfazer-se a si mesmo.

    Exaltar aquilo que dá mais valor.

    Para os Cristãos, acreditam que devem preencher sua vida de Deus. E na Bíblia, está escrito que Deus é Amor, portanto, em tese, buscam viver cheios de Amor, exemplificado em Jesus, que deu sua vida para os amigos.

    Mas a pergunta que se faz é, quantos crentes em cristo você viu por aí dando o sangue por amor? Ou fazendo o mais simples, dando a outra face para o inimigo bater?

    Eu já ouvi relatos de alguns, principalmente nos primeiros séculos da era cristão, bem como no cotidiano aqui da minha cidade, Belém, Pará, Amazônia, Brasil.

    Mas isso por si mesmo não é nada.

    O que seria então? A busca, constante, pois pela fé, e esperança em Cristo, alcançaremos o pleno e verdadeiro Amor.

    Desde já me penitencio perante Vossas Doutas Excelências que estão a ler isso aqui, pela minhas simplórias palavras e também pela impossibilidade de poder demonstrar-lhes aqui pela fria tela do computador uma prova desse Amor, mas se querem saber de fato quem é Deus e como ele se manifesta, saibam, que é o AMOR!

    Que o Amor, sempre esteja convosco!

    Amém!

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