Na última convenção da AAI (Atheist Alliance International), Sam Harris causou polémica ao questionar a utilização do termo “ateísmo”. Harris mostrou preocupação com o facto de esse termo transportar consigo um estigma social que, em última análise, não favorece a luta contra a superstição, o sobrenatural, os deuses imaginários e a demência colectiva das religiões.

Embora entenda as suas preocupações, parece-me irrelevante aquilo que nos chamamos a nós próprios. Não é pela escolha da etiqueta que os objectivos serão atingidos com maior ou menor facilidade. Penso, de qualquer forma, que a questão levantada por Harris é uma questão mais americana que global, não sendo, no entanto, exclusiva dos Estados Unidos. Alguns dos meus colegas brasileiros quando confrontados pela primeira vez com o meu ateísmo reagiram como se eu estivesse a assumir práticas sexuais com cachorros Dobberman, tais não foram as expressões nos seus rostos!

Ao contrário de Harris, penso que o estilo e estratégia utilizados é que farão a diferença nesta “batalha” pelo racionalismo. A promoção, incentivo e divulgação da ciência e do racionalismo terão muito mais impacto no combate ao obscurantismo religioso, ao misticismo e ao sobrenatural do que qualquer outra forma de combate que por si também seja criticável por falta de racionalidade. Só elevando a forma de combate para os valores que nós mesmos defendemos poderemos evitar de ser arrastados para um terreno que não nos é favorável: o do insulto fácil, da ofensa gratuita, enfim, o das manifestações irracionais. A estigmatização acontece quando em vez de se criticarem ideias, se enxovalham pessoas; quando em vez de se refutarem dogmas, se condenam indivíduos.

Assim, a preocupação de Harris parece-me algo despropositada. Independentemente daquilo que nos chamemos a nós próprios, o que importa é a credibilidade que conquistamos na sociedade em que estamos inseridos. É aí que o estilo e a estratégia utilizados farão, com certeza, toda a diferença.

Comentários

Uma Resposta a “Uma questão de etiqueta”

  1. JPC em 10 Outubro, 2007 16:56

    O Helder não deixa de ter a sua razão, mais importante do que a forma (nomes, símbolos, etc) é efectivamente o conteúdo (valores, etc.). Mas a preocupação de Sam Harris também não deixa de ser pertinente, porque há, de facto, um estigma sócio-cultural em relação ao ateismo ou ao agnosticismo (mais em relação à primeira, reconheço), nos EUA e em todo o mundo, quem tem implicações ao nível da própria credibilidade da postura, como o próprio Harris argumenta no seu texto aqui linkado. É esse tipo de preocupação que levou, por exemplo, à criação do movimento naturalista Bright.

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