Depois de algumas trocas de impressões com o comentador António, fiquei com a ideia que isto de falarmos de deus de uma forma abstracta é simultâneamente perigoso e inconsequente. O António, por exemplo, define deus como sendo a “bondade humana”. Há quem defina como sendo o conjunto das forças da natureza. Outros, ainda, definem-no como o criador. As definições são variadas e, provavelmente, impossíveis de enumerar.

Esta característica da crença em deus é perigosa e pode funcionar como uma potencial armadilha na abordagem do ateísmo. Os multifacetados conceitos de deus dão cobertura a equívocos e a mal-entendidos.

De agora em diante, antes de iniciar qualquer discussão, prestarei mais atenção à definição de deus válida para o meu interlocutor. É como entrarmos num jogo em que cada vez que este se inicia as regras mudam consoante o adversário. Vá-se lá entender porquê.

Comentários

3 Respostas a “Afinal, são deuses”

  1. António em 9 Outubro, 2007 21:47

    Eu não defino “deus”, caro Helder,porque até aí ,no uso ou não de maiúscula na palavra Deus(ou deus) reside logo a substancial diferença,entre o seu Ateísmo e o meu Teísmo.
    Quando referi que o meu conceito de Deus passava essencialmente pela ênfase da Bondade Humana,quis significar duas ideias matrizes sobre o conceito divino.
    Para mim,Deus é essencialmente expressão de Amor e corporiza-se em qualquer ser que se exprima socialmente pelo parâmetro singular da Bondade de Sentimento.
    Quando era miúdo,pensava que Deus era um Senhor Barbudo e de cabelos brancos,que se encontrava algures sentado “lá em cima”,no meio das nuvens,num cadeirão muito pomposo.
    Mas essa era de facto uma ideia ingénua e juvenil de Deus,que,entretanto,foi evoluindo a partir do meu crescimento até à condição de adulto e,essencialmente,por via de vivências pessoais que me firmaram a convicção da Sua Existência.
    Creio que Ele está em cada ser,é a nossa alma,a nossa melhor parte,a mais simples,a mais benigna,a mais generosa,a menos egoísta,a mais Absoluta.
    Deus é cada um de nós,quando cada um de nós assume um comportamento humano identificado com o Amor e a Bondade.
    Mas há outras noções sobre o conceito de Deus e não há um conceito universal.
    Victor Hugo diria:”
    “Deus é a evidência invisível”
    Gandhi diria:
    “Deus não tem nenhuma religião
    Amor e verdade são duas faces de Deus. A verdade é o fim, o amor, o caminho”
    E Einstein diria também:

    “A opinião comum de que sou ateu repousa sobre grave erro. Quem a pretende deduzir de minhas teorias científicas não as entendeu.

    Creio em um Deus pessoal e posso dizer que, nunca, em minha vida, cedi a uma ideologia atéia.

    Não há oposição entre a ciência e a religião. Apenas há cientistas atrasados, que professam idéias que datam de 1880.

    Aos dezoito anos, eu já considerava as teorias sobre o evolucionismo mecanicista e casualista como irremediavelmente antiquadas. No interior do átomo não reinam a harmonia e a regularidade que estes cientistas costumam pressupor. Nele se depreendem apenas leis prováveis, formuladas na base de estatísticas reformáveis. Ora, essa indeterminação, no plano da matéria, abre lugar à intervenção de uma causa, que produza o equilíbrio e a harmonia dessas reações dessemelhantes e contraditórias da matéria.

    Há, porém, várias maneiras de se representar Deus.

    Alguns o representam como o Deus mecânico, que intervém no mundo para modificar as leis da natureza e o curso dos acontecimentos. Querem pô-lo a seu serviço, por meio de fórmulas mágicas. É o Deus de certos primitivos, antigos ou modernos.

    Outros o representam como o Deus jurídico, legislador e agente policial da moralidade, que impõe o medo e estabelece distâncias.

    Outros, enfim, como o Deus interior, que dirige por dentro todas as coisas e que se revela aos homens no mais íntimo da consciência.”

    Eu,por mim,perfilho esta ideia einsteiniana do Deus interior que se revela no mais íntimo da consciência humana.

    Como vê Helder,há também uma forma racional de se conceber a existência do Divino,com todo o respeito que igualmente merece qualquer visão agnóstica ou ateísta sobre a concepção da Vida.

  2. Helder Sanches em 10 Outubro, 2007 11:44

    Caro António,

    Embora não defenda que as explicações mais simples têm sempre tendência para serem as mais prováveis, pergunto-lhe porque é que quando somos boas pessoas não somos apenas isso mesmo e temos que ser parte integrante desse deus misterioso ou deixar que ele seja parte integrante de nós? Sem misticismos nem divindades, apenas gente boa, bem formada…

  3. António em 10 Outubro, 2007 17:40

    Porque essa Bondade Humana pode ser a consubstanciação do Divino,para quem,como eu,está convicto de que só na dimensão humana a Divindade se assume plenamente.
    Podemos conceber perfeitamente a Existência sem essa vertente do Absoluto e perspectivarmos a Vida apenas na sua dimensão precária,relativa e finita.
    Mas há algo de muito grandioso quando olhamos para o Firmamento numa noite estrelada e que nos toca profundamente,não acha ?
    Algo que,ainda indefinido,nos toca profundamente e nos arrebata por dentro,seja na alma,seja nos nossos sentimentos e emoções
    Algo que tem a ver com a dimensão Infinita do Universo.
    Mas tem razão meu caro Helder:O essencial é mesmo que o Planeta Azul possa ser cada vez mais preenchido por boas pessoas,afectuosas,generosas,que confiram ao Humano a sua maior grandeza,no enlaçamento de afectos e sentires.
    Sabe,acho que Deus está cativo e é por isso que Ele está tão pouco visível.
    Quem acredita Nele,passa normalmente a perguntar o que é que Ele pode fazer que não faz.
    Mas raramente se pergunta o que é que cada um de nós,acreditando ou não na nossa dimensão divina,pode fazer pelos outros que não faz…
    Fico-lhe eternamente grato pela possibilidade fascinante,que me permitiu,de estabelecer consigo este diálogo.
    Bem haja
    Que Deus ou a vida por ela própria lhe proporcione as maiores venturas.

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