O comentador António acusou-me nos comentários aos “Pressupostos” deste blog de, defendendo eu a racionalidade, recusar-me a confrontar com quem de mim diverge. Há um equívoco na apreciação do António. Eu não me recuso a confrontar as minhas ideias com ninguém desde que a confrontação pressuponha as mesmas regras e os mesmos princípios para ambas as partes.

Não considero importante argumentar com alguém que acredita “por que sim” que o Mundo tem seis mil anos, que a mulher nasceu da costela do homem ou que Lázaro ressuscitou graças a Jesus; seria a mesma coisa que argumentar com quem acredita que existem umas dezenas de virgens à espera dos mártires da Jihad!

Estou mais interessado em discutir o fenómeno religioso de uma forma abstracta, entender as suas causas e consequências, avaliar os seus custos e benefícios(!) para a sociedade e compará-lo com a alternativa oferecida pela racionalidade honesta da ciência.

O António que me desculpe a arrogância - não é só ter a fama, há que ter o proveito de vez em quando - mas essas discussões dos mundos fantásticos e imaginários deixo para outros. Não é esse o papel que pretendo desempenhar com este blog. Se quiser confrontar o seu teísmo com o meu ateísmo, vamos a isso. Tem é que me prometer que deixa os dragões na garagem…

Comentários

5 Respostas a “Confrontações”

  1. António em 6 Outubro, 2007 16:55

    “As trocas de ideias são sempre mais interessantes quando os interlocutores não estão de acordo,não acha ?”

    Lembra-se,meu caro Helder,de quem equacionou essa premissa como válida,não lembra ?…
    Quando,por mero (não)acaso deparei com o seu blogue,achei-o sumammente interessante e de muito bom nivel e atrevi-me a entrar na controvérsia.
    Muitas das questões que o Helder tem suscitado são extremamente pertinentes para quem,como eu,gosta de aferir a validade das suas convicções teístas em cotejo com quem as nega,do ponto de vista ateísta.
    Infelizmente,em nome de uma pseudoreligiosidade,têm-se cometido as maiores barbaridades históricas:
    Cruzadas,Inquisição,A Opulência do Vaticano,os preconceitos atavistas de carácter moralista da Igreja Católica,mormente em matéria sexual,não relevam,na minha perspectiva de uma visão cristã da Vida,mas precisamente de uma deturpação anticristã.
    Como vê,em muitos pontos vou estar de acordo consigo,pois não é num Deus reaccionário que eu acredito.
    Para mim,Deus tem um nome:Bondade Humana,onde e em quem ela se manifeste de forma honesta e consequente,independentemente das convicções teístas ou ateístas que nos fundam as nossas convicões.
    Um dos seres humanos de alma mais bela que eu tive o privilégio de conhecer convive comigo há 5 anos e é ateia.
    É a minha mulher,que tanto amo e adoro.
    A minha “acusação”,como lhe chamou,deriva logicamente da alteração que introduziu nos pressupostos do seu blogue:

    “Face à mudança de estratégia ou, melhor dizendo, ao início de uma estratégia para este blog, convém talvez explicar algumas directrizes pelas quais o conteúdo do mesmo se irá pautar. Estes serão os pressupostos e quem não concordar com eles pode, desde já, passar a visitar, em opção, os sites listados no final deste texto.”

    Eu não concordo com os seus pressupostos mas não me apetece abandonar a dialéctica nem derivar para os sites alternativos da sua lista.

    Claro que o Helder pode sempre excomungar-me…;)

  2. Helder Sanches em 7 Outubro, 2007 6:08

    Longe de mim excomungá-lo… Há uns meses atrás poderia condená-lo ao purgatório mas agora parece que até já esse não existe! Puff… desapareceu. Ainda por cima, você sofre do mesmo “martírio” que eu sendo casado com alguém da equipe contrária. No meu caso já lá vão dezasseis anos… and counting.

    Aparentemente, você está a cometer um erro de análise em relação aos “pressupostos”. Desde que comecei a abordar o ateísmo como objecto principal deste blog que coloquei o texto com os pressupostos no ar. Não são recentes, têm quase um ano. Aliás, antes disso, poucas referências haviam à religião ou ao ateísmo. Portanto, eu não alterei nada nos pressupostos. O António é que ainda não tinha reparado neles.

    Em relação à sua definição de deus como sendo a bondade humana tenho que lhe perguntar se é a bondade humana em relação ao próximo, em relação aos outros animais, em relação ao meio ambiente ou em relação a quê? Mais, o que é que você entende como bondade? Já pensou que o que é sinónimo de bondade para si poderá não o ser para o seu vizinho?

    É que isso de dizer que deus é a bondade humana é muito bonito, soa bem poeticamente, até apetece dizer que concordamos mas, se pensarmos um bocado no assunto chegamos à conclusão que é vazio, pouco concreto e seguramente nada universal!

  3. António em 7 Outubro, 2007 12:41

    Nada existe na Vida que não seja eminentemente subjectivo e isso é válido também para a forma como interiorizamos as noções conceptuais,v.g.,sobre a Bondade Humana.Não tenho a pretensão de erigir o meu conceito a princípio universal.Apenas pretendi enfatizar a característica fundamental do Deus,em cuja Existência estou convicto.Bondosos são todos os seres que se dedicam generosamente a suprir ou minorar a Dor e o Sofrimento alheios.É uma noção muito básica mas a mim,panteísta confesso,chega-me perfeitamente como critério definidor do conceito.

  4. JPC em 7 Outubro, 2007 22:17

    Peço desculpa pela intromissão neste interessante “duelo”, e com todo o respeito pelas convicções (teistas ou ateistas) de cada um, sempre achei curiosa a enorme quantidade de cristãos “free-lancers” como este nosso amigo António. Não é uma critica, quem sou eu?!, é uma constatação e um espanto. Até acho que é fantástico que isso aconteça, mas não deixa de ser interessante que a maior parte dos cristãos que conheço e leio tenham uma “visão muito pessoal” e não-ortodoxa da doutrina cristã, adaptada ao respectivo quadro de valores e princípios pessoais e tenham o “seu” deus, muito íntimo e subjectivo. Será que estes entram para as estatísticas do Vaticano? E eis um excelente tema para desenvolver no meu blog um dia destes, obrigado pela inspiração :)

  5. António em 7 Outubro, 2007 23:32

    Não se trata de nenhum “duelo” ,amigo JPC(;),mas apenas a assunção de que o normal da vida radica nas diferenças de cada pessoa perante a universalidade da existência.
    Muito interessante a sua reflexão porque ela vem tocar num ponto essencial sobre a diversidade de entendimentos na esfera teísta,para além das teses oficiais das hierarquias eclesiásticas…

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