Fé e Inteligência

Nos comen­tá­rios a este artigo, o Xiqui­nho defende a teo­ria de que é impos­sí­vel alguém ser simul­ta­ne­a­mente inte­li­gente e reli­gi­oso. Parece-me que é uma posi­ção dema­si­ado arris­cada. Seria como dizer que é impos­sí­vel alguém ser inte­li­gente e gos­tar de fute­bol. Ou alguém ser inte­li­gente e fumar.

Se é ver­dade que diver­sos estu­dos apon­tam para uma inver­são pro­por­ci­o­nal entre o grau aca­dé­mico e a reli­gi­o­si­dade (as per­cen­ta­gens de mem­bros reli­gi­o­sos da Nati­o­nal Aca­demy of Sci­en­ces dos EUA ou da Royal Soci­ety da Com­mon Wealth demons­tram, cla­ra­mente, esta evi­dên­cia), esta aná­lise parece-me, mesmo assim, dema­si­ado simplista.

Em pri­meiro lugar, não é liquido que um maior grau aca­dé­mico cor­res­ponda neces­sa­ri­a­mente a uma maior inte­li­gên­cia. Pode ser reflexo de um con­si­de­rá­vel número de fac­to­res onde se incluirá tam­bém, cer­ta­mente, a inte­li­gên­cia, mas esta estará muito longe de ser o único fac­tor deter­mi­nante para a obten­ção de um grau aca­dé­mico supe­rior. Outros fac­to­res a ter em conta serão, por exem­plo, ori­gem social, grau de lite­ra­cia, dis­ci­plina, capa­ci­dade de orga­ni­za­ção e método, pres­são social, dis­po­ni­bi­li­dade e (por­que não?) vontade.

Em segundo lugar, por mais incom­pre­en­sí­vel que possa pare­cer, a neces­si­dade de um con­forto espi­ri­tual pode ser uma neces­si­dade não raci­o­nal para muita gente e manifestar-se num plano estra­nho, extra-lógica, que será sem­pre absurdo para quem não par­ti­lhar essa carac­te­rís­tica. Ainda recen­te­mente assisti na Gul­ben­kian a uma série de encon­tros em que se abor­dou a ques­tão das van­ta­gens evo­lu­ti­vas da religião.

Por último, exis­tem mui­tas vari­e­da­des de reli­gi­o­sos. Metê-los a todos no mesmo saco está para lá das minhas inten­ções. O tipo de fé que move um cri­a­ci­o­nista não será, segu­ra­mente, o mesmo tipo de fé que move um panteísta.

Em suma, embora qual­quer pes­soa que acre­dite numa qual­quer enti­dade divina por pura con­vic­ção ou fé esteja, a meu ver, com alguns pro­ble­mas de inter­pre­ta­ção do mundo que nos rodeia, dou – a alguns – cré­dito para os con­ti­nuar a con­si­de­rar inte­li­gen­tes. Por mais absurda que me possa pare­cer essa neces­si­dade de pro­cu­rar res­pos­tas no sobrenatural.

Par­ti­lha!

    17 comentários em “Fé e Inteligência

    1. Hél­der,

      Acho que con­fun­diste algu­mas coisas.

      Li na dia­go­nal (sem­pre ado­rei esta expres­são) os comen­tá­rios do Xiqui­nho e tenho ideia que ele falou só de “inteligência vs reli­gi­o­si­da­de” e tu (sem que­rer) foste criar uma linha de liga­ção com o grau aca­dé­mico que não foi cri­ada na altura, nem devia ter sido feita.

      Não acre­dito que alguém possa (com raci­o­na­li­dade) fazer a liga­ção directa entre estu­dos e inte­li­gên­cia, pois não é assim tão fácil, tal como con­se­guiste expli­car, e de forma bem feita como tu bem sabes fazer. (humm…”feita” e logo a seguir “fazer”…escrevo mesmo bem…e estes 3 “bem” segui­dos caí­ram mesmo…bem).

      Alguém com estu­dos, estando (em prin­ci­pio) mais den­tro do assunto de como as coi­sas são real­mente fei­tas, como acon­te­cem, por­que acon­te­cem, têm a obri­ga­ção de pen­sar de forma dife­rente sobre cer­tos assun­tos, e não ir pelo cami­nho mais fácil tal como:

      - Cor­reu mal? A culpa é do homem.
      – Cor­reu bem? Foi gra­ças a deus.
      Etc. â€¦

      Mas dizer-se que se tem “a obri­ga­ção”, não quer dizer que se cumpra.

      P.S.: Eu gosto de fute­bol e fumo, logo senti-me gra­ve­mente atin­gido por ti;)

      Brinco.
      Abraço.

    2. O Xiqui­nho quando esta­be­le­ceu esse anta­go­nismo refe­riu Richard Daw­kins e os exem­plos que ele cita no “The God Delu­sion”. Daí eu ter enve­re­dado por esse cami­nho.
      Aliás, quero res­sal­var que o facto de eu muito admi­rar Richard Daw­kins e con­cor­dar com ele em mui­tos aspec­tos nhão sig­ni­fica que con­corde em todos.

    3. reli­gi­oso inte­li­gente??? papa é.. os pas­to­res são.. afi­nal…
      veja o patri­mo­nio deles!

    4. Eins­tein agra­dece a bene­vo­lên­cia desse crédito,Gandhi também,Rainer Maria Rilke igualmente,Martin Luther King idem aspas,Carl Jung,William Sha­kes­pe­are e o nosso Agos­ti­nho da Silva…tudo gente de” escasso “gaba­rito inte­lec­tual.
      Como se vê,provas pro­va­das de que é “impos­si­vel alguém ser simul­tâ­ne­a­mente inte­li­gente e reli­gi­oso”…
      A mim tam­bém me parece ser uma “posi­ção dema­si­ado arris­cada” e um nadi­nha ridí­cula convenhamos…;)

    5. Caro Antó­nio,

      Na Bíblia, as intra-referências são com­ple­xas, as ver­da­des diver­si­fi­ca­das e a banha da cobra abun­dante, é certo. Neste blog, ao con­trá­rio, é tudo muito sim­ples. Por isso, agra­deço que quando fizer trans­cri­ções de algum texto o faça SEMPRE sem o tirar do con­texto correcto.

      Dito isto… você leu mesmo o texto do post? Fiquei com a sen­sa­ção que não! De qual­quer forma, de todas as per­so­na­li­da­des que refe­riu, con­fesso que só conheço mais apro­fun­da­da­mente Eins­tein. Você pelos vis­tos, não; caso con­trá­rio sabe­ria per­fei­ta­mente que Eins­tein quando se refe­ria a deus referia-se às for­ças da natu­reza, tinha uma visão pan­teísta, quanto muito, da sua pseudo religiosidade.

      Como, apa­ren­te­mente, você tem tempo dis­po­ní­vel para nave­gar na net, recomendo-lhe este vídeo.

    6. Li sim.mas à luz da minha interpretação,não da sua e a con­clu­são que retirei,depois de reler o post,está per­fei­ta­mente ajus­tada ao comen­tá­rio tecido.Einstein não era pseudo-religioso,como você tenta desmerecer,relativamente àquele que eu considero,no plano científico,o génio dos génios e insus­peito de poder ser dimi­nuido na dimen­são supe­rior do seu intelecto.A visão dele era ver­da­dei­ra­mente teísta e,se pan­teísta ou não pouco importa.Na dimen­são reli­gi­osa da Vida tam­bém há lugar para várias acep­ções de Deus.Eu estou com Einsten,Espinosa e Leib­niz e não me julgo mal acom­pa­nhado…
      P.S.Tenho tempo para nave­gar na Net sim,como facil­mente se constata,numa lógica pura­mente aristotélica…

    7. Para­béns Antônio!

      De fato, Eins­ten acre­di­tava em Deus, ainda que num Deus que não tenha, neces­sa­ri­a­mente, que inter­vir na vida das pes­soas em todos os momentos.

    8. Fé e inte­li­gên­cia são ape­nas cami­nhos dife­ren­tes para o homem e a mulher che­ga­rem até (de-eu´s) DEUS. Tam­bém está escrito que, Deus os criou à sua pró­pria seme­lhança e ima­gem. Enquanto que fé é uma boa carac­te­rís­tica dos homens se acom­pa­nhada de acção por­que fé sem obras é o mesmo que um corpo sem vida. Já a inte­li­gên­cia a Deus per­tence, e, diz a sabe­do­ria popu­lar que inte­li­gente é o burro que des­co­briu a poda das arvo­res.
      Esta alu­são a tão pres­tá­vel ani­mal ape­nas serve para mos­trar que no ini­cio era a pala­vra e que esta se fez homem.
      Não importa se tens ou não fé em Deus, se és ou não ateu, vamos mas é todos acre­di­tar no dia de ama­nhã e cons­truir­mos, hoje um futuro melhor para os nos­sos filhos (tal como Deus nos fez).
      Acre­dito em ti.

    9. Este termo , penso que foi cri­ado por reli­gi­o­sos, para blo­quear a capa­ci­dade das pes­soas em pen­sar, em deci­di­rem por si e acre­di­tem em tudo o que eles querem.

    10. Sem tirar nem por, todas as pala­vras só podem ter sido cri­a­das pelo homem quando ins­pi­rado em DeEUS, a pala­vra só tem sig­ni­fi­cado quando forem defi­ni­dos os seus limi­tes, certo?

    11. Não, não é absurdo acor­dar que a fé pode estar em con­so­nân­cia com a inte­li­gen­cia. A fé é mesmo o prin­ci­pado da inte­le­gen­cia. Jesus ensinou-nos a usar a fé com inte­li­gê­nia, o que é a fé ? — con­vic­ção plena que o facto pelo qual espe­ra­mos (e que seja bom para nós) vai se rea­li­zar. Ora =INTELIGENCIA. Fé = Deus = subconsciente.

    12. Fé=Inteligência?

      Por aqui, e acho que em qual­quer lugar, fé é sinônimo de crença.

      Já inte­li­gên­cia é a facul­dade de apren­der, é carac­te­rís­tica do intelecto.

      Não con­sigo encon­trar rela­ção entre os dois termos.

      Algum crente inte­li­gente pode­ria me ajudar?

    13. Onde está a inte­li­gên­cia dos “fiéis” que acei­tam passivamente,sem ques­ti­o­nar, as dou­tri­nas de suas reli­giões impos­tas por seus líderes?

    14. Jairo, pode­ría­mos tran­qui­la­mente redi­re­ci­o­nar essa per­gunta a alguns ateus que acei­tam pas­si­va­mente, sem ques­ti­o­nar, as dou­tri­nas de Den­nett, Daw­kins, Har­ris, etc… (não ques­ti­ono os auto­res, mas os leitores)

      É quase impos­sí­vel hoje con­ver­sar com um ateu sem ouvir os mes­mos man­tras tira­dos de tais autores.

      Quanto ao artigo: gos­ta­ria de res­sal­tar o con­ceito das múl­ti­plas inte­li­gên­cias. Inte­li­gente não é ape­nas o aca­dê­mico, o mate­má­tico, o cientista.

      Temos inú­me­ros gênios fora das ciÊn­cias exa­tas, e a crença ou não em Deus não é deter­mi­nante da geni­a­li­dade ou estupidez.

    15. Ismael, nós cres­ce­mos ouvindo os man­tras dos religiosos-cristãos e é impos­sí­vel con­ti­nuar de mente sadia espe­rando as pro­mes­sas que o cris­ti­a­nismo prega e não cum­pre, chega de cegueira, vamos enxer­gar a con­ve­ni­ên­cia dos que cri­a­ram todos estes dog­mas que são seguidos,como gado ao matadouro,sem ao menos ques­ti­o­na­rem estes dog­mas. É pre­ciso cora­gem para duvi­dar e não acei­tar pas­si­va­mente qual­quer tipo de impo­si­ção.” O homem está con­de­nado a ser livre.” JPS.

    16. Aos defen­so­res que ale­gam que a inte­li­gên­cia tanto pode estar entre os cren­tes e os não cren­tes, eu dis­cordo. E dis­cordo e entendo que os que vêem mais longe são inte­li­gen­tes e os que vêem mais perto eu cata­logo de esper­tos.
      Se pen­sar­mos que um pro­fis­si­o­nal da fé cujo ren­di­mento do vil metal pro­vém da reli­gião e que é a única garan­tia de sobre­vi­vên­cia, ele é uma pes­soa esperta. Tal como o viga­rista de boa fala e poder de per­su­a­são é um esperto e não um inte­li­gente.
      O esperto con­se­gue o lucro ime­di­ato enquanto que o inte­li­gente gasta mais tempo espe­rando o resul­tado da pes­quisa para poder avan­çar na reco­lha do lucro.
      Por outro lado, pes­so­al­mente não acre­dito no homem que per­corre o cami­nho para atin­gir o topo de uma car­reira reli­gi­osa ou polí­tica, seja inte­li­gente. Acho que ele é esperto. Não acre­dito que os car­de­ais ou o papa acre­di­tem em deus. Fazem isso pela ganân­cia do poder den­tro e fora da orga­ni­za­ção. Ajeitam-se às situ­a­ções e sabem mover as pedras para man­te­rem as orga­ni­za­ções. O polí­tico pro­mete, não cum­pre mas garante que vai fazer. O reli­gi­oso não garante nada, tem melhor opção para a des­culpa, foi a von­tade de deus e as suas von­ta­des são inson­dá­veis e não ques­ti­o­ná­veis.
      Inte­li­gente é o cien­tista estu­di­oso que tra­ba­lha quando e quanto pode. Tra­ba­lha e nem sabe que está tra­ba­lhando. Ele está envol­vido na des­co­berta, no achar de uma solu­ção. Não sobe em escala hie­rár­quica por tempo de ser­viço, vai subindo na con­si­de­ra­ção dos outros e nem se sente supe­rior ou infe­rior aos demais.
      E além de tudo, ele sem pen­sar está colo­cando o conhe­ci­mento em favor da huma­ni­dade sem espe­rar retorno finan­ceiro. Salvo as empre­sas onde mui­tos estão liga­dos para obten­ção de meios para pes­quisa.
      O inte­li­gente não pro­mete, o esperto garante.
      Sobre o agnos­ti­cismo eu diria o seguinte: Conheço a água e o vinho. A mis­tura dos dois não satis­faz nenhum dos bebedores.

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