O Victor era um amigo meu, mais velho que eu nove ou dez anos, com o qual partilhei algumas noitadas e outras loucuras. Possuidor de uma cultura geral invulgar, era um excelente protótipo daquela geração que estava a chegar ao final da adolescência quando aconteceu o 25 de Abril de 1974; culto, de esquerda, rebelde e assumia publicamente que detestava trabalhar! Foi ele que me ensinou os primeiros acordes dissonantes e a importância de os conhecer e dominar. Com ele aprendi a gostar de jazz e bossa nova.

O Victor, ateu convicto que não suportava beatices, tinha o hábito de dormir sempre nu. Um certo domingo, depois de uma noitada até perto das seis da manhã, o Victor foi acordado às 8.30 pelo continuo tocar da campainha de sua casa. Contrariado, levantou-se e, sem vestir qualquer roupa, dirigiu-se à porta e espreitou para ver quem seria que tocava tão insistentemente. Viu duas senhoras, ambas dos seus 50 anos, vestidas com roupas de domingo e com umas revistas apoiadas nos braços cruzados. Abriu a porta, escancarando-a, e ficou, todo nu, em frente às beatas senhoras. Na sua voz rouca de ressaca disse: “Ora, muito bom dia! Faz favor?”!

As senhoras desceram as escadas a correr, sem olhar para trás. O Victor nunca mais foi incomodado durante as manhãs de ressaca!