Sobre a Moral

Um dos argu­men­tos mais uti­li­za­dos pelos cren­tes na defesa da uti­li­dade reli­gi­osa é o argu­mento da neces­si­dade do mora­lismo reli­gi­oso como sus­tento de uma soci­e­dade moral. Segundo este prin­cí­pio, o mora­lismo reli­gi­oso é indis­pen­sá­vel ao fun­ci­o­na­mento da soci­e­dade, atra­vés da divul­ga­ção de valo­res de jus­tiça e de regras de boa conduta.

Con­tudo, este prin­cí­pio não tem qual­quer fun­da­mento. Os sis­te­mas reli­gi­o­sos são sis­te­mas fecha­dos, relu­tan­tes à influên­cia externa e só assi­mi­lam novos valo­res exte­ri­o­res quando lhes é con­ve­ni­ente, atra­vés de um sim­ples pro­cesso de sobre­vi­vên­cia ou, como quase sem­pre acon­tece, tar­di­a­mente, quando já toda a soci­e­dade assi­mi­lou as alte­ra­ções em causa.

Por serem sis­te­mas fecha­dos e, con­se­quen­te­mente, as nor­mas morais demo­ra­rem muito tempo a sofre­rem adap­ta­ções, as reli­giões per­ma­ne­cem pra­ti­ca­mente imu­tá­veis aos olhos de qual­quer gera­ção e as alte­ra­ções só se con­se­guem vis­lum­brar, mui­tas vezes, numa pers­pec­tiva histórica.

Assim, como se expli­ca­ria, baseando-nos no prin­cí­pio exposto no pri­meiro pará­grafo, que os valo­res morais de uma reli­gião sofram dessa imu­ta­bi­li­dade enquanto as soci­e­da­des, com o seu dina­mismo inde­pen­dente da reli­gião, alte­rem con­si­de­ra­vel­mente os seus valo­res em pro­ces­sos que mui­tas vezes duram escas­sos anos?

Se o prin­cí­pio da moral reli­gi­osa fosse válido vive­ría­mos ainda sob a mora­li­dade medi­e­val, uma vez que os prin­cí­pios morais reli­gi­o­sos dessa era ainda vigo­ram na sua maior parte; nos casos em que isso não acon­tece, a reli­gião foi sem­pre a rebo­que das alte­ra­ções impos­tas pela dinâ­mica da sociedade.

Não exis­tem razões de facto para sus­ten­tar a supe­ri­o­ri­dade de qual­quer moral reli­gi­osa. A moral é fruto desse enorme empre­en­di­mento que é – e con­ti­nu­ará a ser – a adap­ta­ção do ser humano ao mundo que o rodeia, pro­cu­rando equi­lí­brios de jus­tiça na busca da feli­ci­dade indi­vi­dual e colectiva.

(Diá­rio Ateísta / Penso, logo, sou ateu)

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11 Responses to Sobre a Moral

  1. Eva

    isso é!! o mes­mi­nho ís dizer eu…

  2. Nelson luiz pedra

    Infe­liz­mente as reli­giões estão aí para infer­ni­zar a vida de todos.
    Bani­re­mos as mes­mas quando dizi­mar­mos a ignorância.

  3. Pedro Amaral Couto

    Um artigo do jor­nal Times diz que , “de acordo com o estudo, a crença e ado­ra­ção a um Deus não só são des­ne­ces­sá­rios para a saúde da soci­e­dade, como pode na rea­li­dade con­tri­buir para pro­ble­mas soci­ais” :
    http://www.timesonline.co.uk/tol/news/uk/article571206.ece

  4. Sergio Viula

    Rapaz, ado­rei o teu site!!! Sou ateu tam­bém e adoro filo­so­fia. Achei teu site super inte­li­gente e fácil de enten­der. Qual­quer um pode com­pre­en­der o que vc deseja trans­mi­tir. Tomei a liber­dade de “clo­nar” esse texto sobre moral e publi­car no meu blog, com o devido cré­dito. Vou colo­car o teu link entre meus favo­ri­tos. Tomara que muita gente acesse.

    Um abraço forte,
    Ser­gio Viula
    Rio de Janeiro — Brasil

  5. Sergio Viula

    Aí vai um texto que eu corri o risco de escre­ver. Sim, por­que escre­ver sem­pre é um riso e publi­car é um ato quase sui­cida. Deixar-se escru­ti­nar por olhos anônimos não é a coisa mais pru­dente a fazer, mas é assim que o conhe­ci­mento avança. Então, aí vai:

    Lendo Nietzs­che em seu escrito deno­mi­nado “Sobre a ver­dade e a men­tira num sen­tido ‘extra moral’”, senti-me impe­lido a colo­car alguns dos meus pró­prios pen­sa­men­tos no papel. Depois, con­cluí que seria inte­res­sante compartilhá-los aqui, ainda que pudes­sem atin­gir os sen­ti­men­tos dos mais reli­gi­o­sos. Ainda que assim seja, vale a pena abrir a mente para pen­sar dife­rente, mesmo que depois con­ti­nu­e­mos pen­sando do mesmo jeito que pen­sá­va­mos antes. Por­tanto, aí vai…

    A per­gunta de Pila­tos que ficou sem res­posta da parte de Jesus encon­tra em Nietzs­che uma boa réplica. “Por­tanto, o que é ver­dade? Uma mul­ti­dão móvel de metá­fo­ras, meto­ní­mias, antro­po­mor­fis­mos, enfim: uma soma de rela­ções huma­nas poé­tica e reto­ri­ca­mete poten­ci­a­li­za­das, trans­pos­tas e orna­das e que, depois de longo uso, pare­cem a um povo sóli­das, canônicas e obri­ga­tó­rias: as ver­da­des são ilu­sões sobre as quais se esque­ceu tratar-se de metá­fo­ras que se tor­na­ram usa­das e sem força sen­sí­vel, moe­das que per­de­ram sua impres­são e agora são con­si­de­ra­das ape­nas metal, não mais moedas.”

    É inte­res­sante como o ser humano é um bicho capaz de pro­je­ções tão com­ple­xas que che­gam a con­ven­cer até a si mesmo de sua veracidade.

    No prin­cí­pio era o homem, e o homem estava com medo, e do medo vie­ram os deu­ses. O medo estava no prin­cí­pio com o homem. Todos os mitos foram fei­tos por ele, e, sem ele, nenhum mito se fez. A supers­ti­ção estava nele, e a supers­ti­ção obs­cu­re­cia o enten­di­mento dos homens, mas a razão pre­va­le­ceu con­tra ela.

    Houve mui­tos deu­ses cri­a­dos pelos homens à sua pró­pria ima­gem e seme­lhança, mas o homem que­ria alguém maior do que ele, não só em força, beleza, inte­li­gên­cia, mas em “pureza”. O homem puri­fi­cou tanto os deu­ses de sua seme­lhança con­sigo que aca­bou pro­je­tando uma divin­dade abso­lu­ta­mente iso­lada de tudo o que fosse natu­ral ou ter­reno. Depois alme­jou ser igual ao deus que ele mesmo pro­je­tara, e foi se desnaturalizando.

    Assim foi que muias reli­giões come­ça­ram a se opor a qual­quer traço de “mun­da­ni­dade” na vida humana. O cris­ti­a­nismo con­si­dera vir­tu­o­sos o jejum (não comer e não beber), a vigí­lia (não dor­mir), a reclu­são (não se diver­tir ou soci­a­li­zar), a cas­ti­dade (não tran­sar fora do matrimônio) e o celi­bato (jamais tran­sar), além de uma série de outras nega­ções do que seja mun­dano ou corporal.

    Ao pro­je­tar um deus que é espí­rito trans­cen­dente e que não tolera o menor ves­tí­gio de dese­jos e aspi­ra­ções huma­nos à natu­ra­li­dade (qua­li­dade do que é natu­ral), o ser humano criou um mons­tro e esque­ceu que esse mons­tro não passa de mera pro­je­ção de sua con­tur­bada “psy­ché”. Temendo o mons­tro que ele mesmo criou, o bicho homem vive ten­tando amansá-lo com uma série de regras e sacri­fí­cios, e esquece que o grande “barato” da exis­tên­cia humana é a pró­pria vida neste mundo que o cerca e no con­texto das pos­si­bi­li­da­des que o pró­prio uni­verso lhe ofe­rece. A supers­ti­ção só serve para impe­dir a feli­ci­dade ou tra­var o desen­vol­vi­mento sau­dá­vel de nos­sas men­tes e corpos.

    O cris­ti­a­nismo não é melhor do que a mito­lo­gia dos povos anti­gos. Alguns judeus, sob influên­cia for­tís­sima dos gre­gos e roma­nos, cri­a­ram o deus cris­tão, com seus tras­mun­dos (mun­dos além deste). Em nada dife­rindo das cren­ças anti­gas de vários povos. Nietzs­che chega a dizer que o cris­ti­a­nismo é o pla­to­nismo para o povo.

    Enquanto os cren­tes de todos os mati­zes pen­sam pos­suir uma reve­la­ção espe­cial, igno­ram que o cris­ti­a­nismo só se tor­nou uma reli­gião mun­dial usando o poder tem­po­ral em suas mais sór­di­das ver­sões. Os pro­tes­tan­tes, então, são os mais ilu­di­dos , pois pen­sam que foi gra­ças ao poder da bíblia e do espí­rito santo que mui­tos povos foram con­ver­ti­dos ontem e hoje. No entanto, nenhuma mis­são foi exe­cu­tada sem a espada do colo­ni­za­dor (inva­sor, para ser mais exato) que obri­gava a con­ver­são à força ou a esti­mu­lava atra­vés de bene­fí­cios espe­ci­ais. Com o tempo, o pró­prio povo domi­nado pas­sava a crer no que lhe impu­nha o domi­na­dor, e assi­mi­lava toda aquela supers­ti­ção como ver­dade. Muita vio­lên­cia e cor­rup­ção de toda espé­cie foram neces­sá­rias para que o mundo che­gasse a abri­gar mais de um bilhão de cris­tãos, em nada melho­res que quais­quer outros reli­gi­o­sos. Pensam-se sepa­ra­dos por deus, quando na ver­dade não pas­sam de seres angus­ti­a­dos que, movi­dos pelo medo, esforçam-se em amar a deus; amor no qual mui­tos deles real­mente acre­di­tam e jamais admi­ti­riam traço de fal­si­dade. Mas o que mais motiva a crença do cris­tão e seu esforço inin­ter­rupto para lutar con­tra si mesmo, considerando-se seu maior ini­migo, é o inte­resse pró­prio e o medo. Ambi­ci­ona o céu e se apa­vora ante a menor pos­si­bi­li­dade de ir para inferno. Em pala­vras sim­ples e dire­tas: quer sim­ples­mente sal­var a pró­pria pele e ainda ser con­de­co­rado por isso… Não foi o que Paulo mesmo demons­trou ao dizer: “Não sabeis que os que cor­rem no está­dio, todos, na ver­dade, cor­rem, mas só um leva o prê­mio? Cor­rei de tal maneira que o alcan­ceis. Todo atleta em tudo se domina; aque­les para alcan­çar uma coroa cor­rup­tí­vel; nós, porém, a incor­rup­tí­vel… Mas esmurro o meu corpo e o reduzo à escra­vi­dão, para que, tendo pre­gado a outros, não venha eu mesmo a ser des­qua­li­fi­cado.” (I Corín­tios 9: 24, 25,27).

    Pre­ciso dizer mais? O cara des­preza, abo­mina a pró­pria cor­po­ra­li­dade, teme o vexame de fazer qual­quer coisa dife­rente do que prega e se con­sola diante de todo esse sofri­mento com uma espe­rança tras­mun­dana, ou seja, de um mundo além desse. O pior é que ele é o modelo que a mai­o­ria dos cris­tãos quer seguir. Espelham-se muito mais em Paulo do que em Jesus. O cris­ti­a­nismo deve­ria chamar-se “pau­li­nismo”. Não é à toa que a cris­tan­dade veio a ser tão colé­rica, res­sen­tida, esqui­zo­frê­nica, auto-flagelada em fun­ção de dog­mas desu­ma­nos e anti­na­tu­rais. Afi­nal, Paulo — o após­tolo que mais sobres­saiu — era o exem­plo per­feito de todos esses transtornos.

    É uma pena que a mai­o­ria das pes­soas não se dê o tra­ba­lho de exa­mi­nar suas pró­prias cren­ças à luz da razão. E ape­sar do grau de ins­tru­ção que algu­mas pes­soas atin­gem, é comum ver pouca ati­vi­dade raci­o­nal por parte des­ses mes­mos indi­ví­duos por causa do medo que silen­ci­o­sa­mente nutrem de per­de­rem a fé. Mas não está aí mesmo a maior prova de que a fé é mero obscurantismo?

  6. Helder Sanches

    Oi Sér­gio,

    Obri­gado pela visita e pelo elo­gio. Gos­tei da refle­xão sobre a ausên­cia de “mun­da­ni­dade” nas reli­giões. Mere­cerá a con­si­de­ra­ção devida num futuro artigo.

    Para­béns tam­bém pelo seu blog.

    Um abraço.

  7. O mensageiro

    As reli­giões não tem moral nem dig­ni­dade. Por­tanto excluí­das de bons prin­cí­pios. A soci­e­dade de um modo geral, cor­rom­pida e sem um mínimo de cará­ter! Só resta a opção para esta huma­ni­dade des­ti­tuída de qual­quer prin­cí­pio uma avas­sa­la­dora des­trui­ção. nada mais!

  8. Pingback: Educação Ateía | Portal Ateu

  9. Abraão

    Olá Sér­gio, foi pena vc não ter dei­xado o link para a gente ler o seu Blog.

  10. JB SINDISAUDE

    LAMENTO.
    PREFEREM ACREDITAR EM PENSAMENTOS E ESCRITURAS ATUAIS INCOMPLATAS E SEM RESPOSTAS COMPLETAS, EM VEZ DO LIVRO SAGRADO; NÃO IMPORTA SE É SAGRADO OU NÃO; MAS RESPONDE A MAIS DIFÍCIL DE TODAS AS PERGUNTAS
    PORQUE EXISTIMOS?

  11. JB SINDISAUDE

    ELE AMA VOCÊS E EXISTE
    EU O VEJO SEMPRE.

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