Com a data do referendo sobre o aborto - IVG para os politicamente correctos - já definida, começa a propaganda desenfreada dos principais agentes da nossa sociedade, tanto do lado do “NÃO” como do “SIM”.

Já expus a minha opinião sobre a matéria (parte I, parte II, parte III). Não sinto necessidade de voltar a abordar o assunto e muito menos de exercer qualquer influência na decisão de outros. Este é um assunto que não tem, ou melhor, não deveria ter nada a ver com as opções politicas ou religiosas de cada um.

No entanto, lamento o facto de existirem outros que não pensem assim e que, para além de quererem expor as suas ideias, utilizem as mais criticáveis formas de propaganda que tanto criticam aos outros. Esse é, infelizmente, o caso de alguns artigos do Diário Ateísta. Neste artigo, é utilizado um slide como argumento que não tem absolutamente nada a ver com a matéria. É utilizado ainda um botão que transmite a ideia de que a única coisa que está em causa é ser a favor ou contra a prisão das mulheres que recorrem ao aborto! Como se esse fosse o único aspecto que estivesse em causa. Ou seja, estão a ser utilizados os métodos que tanto criticam aos outros, nomeadamente à ICAR! Propaganda, pura e simples.

O Diário Ateísta está a demonstrar não ter elevação suficiente para poder, de alguma forma, vir a transformar-se numa voz credível de todos os ateus nacionais. Para isso acontecer, teria que, em assuntos desta horizontalidade, demonstrar mais respeito pelos que, sendo ateus, têm opiniões diferentes. Deveria ser um espaço que promovesse o debate de ideias e ponto final. Associando-se aos métodos propagandistas associa-se, também, a uma imagem de “evangelização” muito pouco coerente.

Comentários

6 Respostas a “Aborto - Propaganda bilateral”

  1. palmira on Dezembro 5th, 2006 11:19

    Caro Helder:

    «a única coisa que está em causa é ser a favor ou contra a prisão das mulheres que recorrem ao aborto»

    é óbvio que isto é simplesmente o que está em causa no referendo!

    Assim de repente não me lembro de mais nada na questão a que vamos responder sim ou não no próximo dia 11 de Fevereiro :-)

    Já agora, a história do «respeito pelas ideias dos outros» é apanágio dos crentes. Os ateus são apologistas do respeito pelos outros, isto é, pelo respeito do direito, entre outros, à liberdade de opinião e expressão! Essa liberdade, como deveria ser óbvio, implica ser impossível «respeitar as ideias dos outros» :-)

  2. Helder Sanches on Dezembro 5th, 2006 20:14

    Cara Palmira,

    Muito obrigado pela sua visita e pelo seu comentário.

    De facto, é minha opinião que está muito mais em causa do que ser a favor ou contra a prisão das mulheres que recorrem ao aborto. Sugiro a leitura dos meus artigos sobre esta matéria para entender melhor a minha posição.

    http://heldersanches.com/2006/11/14/aborto-parte-1/
    http://heldersanches.com/2006/11/20/aborto-ii/
    http://heldersanches.com/2006/11/24/aborto-iii/

    Quanto ao respeito pelas ideias dos outros, se ler com atenção o meu texto, verá que o seu comentário não se aplica porque, estando de acordo consigo, nunca uso a expressão “respeitar as ideias dos outros” mas sim “demonstrar mais respeito pelos que, sendo ateus, têm opiniões diferentes”. Aliás, sobre essa matéria já coloquei um artigo de nome “Tolerância de Ideias e Pessoas” que pode encontrar no seguinte link:

    http://heldersanches.com/2006/11/16/tolerancia-de-ideias-e-pessoas/

    Sabe, você habituo-me mal… Considero os seus artigos no DA dos mais interessantes; acho que aquele a que me refiro neste meu artigo não lhe faz justiça. E isso, confesso, desiludiu-me.

    Volte sempre.

  3. Tone Biclas on Dezembro 6th, 2006 22:44

    Bem, mais uma vez acho de bom gosto intervir no que a esta matéria concerne. De facto, o que está em causa não é “respeitar as ideias dos outros”, nem sequer “demonstrar mais respeito pelos que, sendo ateus, têm opiniões diferentes”. Meus amigos, caríssima Palmira e caro Hélder: o referendo sobre o aborto tem a ver com o reflexo da opinião da sociedade na penalização ou, pelo contrário, na descriminalização de um facto cuja prática implica a aplicação de uma sanção penal. Basicamente, usa-se de um meio legal e previsto ao nível da lei constitucional para se aferir do merecimento de protecção de um bem jurídico (a vida intra-uterina) e em que condições, termos e vicissitudes isso acontecerá. Os bens jurídicos penais são objecto de protecção apenas porque a sociedade, o “povo” acha que merecem maior censura (ideia de culpa) ou pensam ter um mais alto valor (campo da ilicitude, o desvalor da acção) do que outros. Estamos no campo do Direito, não da religião ou crença (ou até descrença), apesar de se fazer uso dos dois para afirmar e propagandear opiniões e orientações. Basicamente, e sem apelo a convicções pessoais acerca da religião ou falta dela, e como já afirmei aqui, é tudo uma questão de cada um de nós (com capacidade eleitoral, obviamente) votar de acordo com a sua consciência.
    Quanto ao respeito pela opinião dos outros, e para ser lógico e coerente, acho que o voto é secreto, logo quem optar pelo “sim” ou pelo “não”, independentemente de ser católico, hindu, budista, islâmico ou ateu, e vivendo em Portugal, tomará a decisão que considerar a mais acertada, sem querer ponderar qual será a decisão dos outros. Assim, se me permitem uma blasfémia, vão-se estar a “cagar” para o que os outros pensam. Esta é a minha ideia de liberdade de escolha e convicção acerca dos valores.
    Bem hajam!

  4. Tone Biclas on Dezembro 6th, 2006 22:54

    Post Scriptum: tenho perfeita consciência de que no teu post afirmaste algo do género, pelo que a ignorância não me influenciou na escrita do meu comentário anterior. Ainda assim, acho que nos teus posts anteriores foste…como hei-de dizer…presunçoso!

    Presunçoso (cfr. Dicionário da Língua Portuguesa Online da Priberam):

    do Lat. praesumptiosu

    adj.,
    que tem presunção;

    orgulhoso.

    Já agora, o conceito de presunção que não consta do “priberam”: consiste nas ilações que a lei ou o julgador retira de um facto conhecido para afirmar um facto desconhecido. Podem ser ilidíveis ou inilidíveis, consoante se possam afastar (mediante prova em contrário) ou não.

  5. Helder Sanches on Dezembro 7th, 2006 5:22

    Caro Manelito (desculpa o carinho),

    Conheço-te há quase 2 anos e é a primeira vez (felizmente) que te ouço a falar “à advogado”! Será a falta de umas Carlsbergs? ;-)
    De qualquer modo, concordo inteiramente com o teu comentário; esqueceste-te, no entanto, de ressalvar a amplitude - ou abertura - da questão colocada a referendo. Da forma aberta que a questão está colocada, o governo pode decidir criar uma lei a seu bel-prazer e escudar-se sempre no resultado do referendo no caso de ganhar o “SIM”.
    Legalmente - e desculpa lá a minha linguagem não ser tão técnica - o governo ficará com carta branca para fazer o que quiser sobre uma matéria em que antes não teve “tomates” para legislar.

    Já agora explica lá melhor onde é que eu fui presunçoso que eu não percebi? Antes, num post anterior, mas qual especificamente?

    Um abraço e vê lá se voltas depressa. Logo vamos estrear quase 400 temas novos…

  6. Ludwig Krippahl on Dezembro 8th, 2006 17:59

    O referendo não é sobre ser a favor ou contra a prisão para as mulheres que abortam. É sobre ser a favor ou contra a possibilidade de punir com prisão homems ou mulheres que matem um feto ou embrião.

    Vota sim quem acha sempre permissível matar o feto ou embrião por opção da mãe, seja porque razão for. Vota não quem acha que há situações em que isto não é aceitável.

Deixe uma resposta