Dar Sangue

Hoje fui dar san­gue. Como sem­pre, saí do hos­pi­tal com uma sen­sa­ção de bem estar indes­cri­tí­vel. Dar san­gue é, obvi­a­mente, volun­tá­rio. No entanto, não me cho­ca­ria nada se todas as pes­soas fos­sem obri­ga­das a dar san­gue pelo menos uma vez na vida. Estou certo que mui­tas pes­soas sai­riam dos ser­vi­ços de san­gue onde fos­sem pres­tar a sua dádiva com a mesma sen­sa­ção de bem estar de que eu gozo quando dou sangue.

Não con­sigo per­ce­ber por que é que não há mais dado­res de san­gue; será como­dismo? Egoísmo? Não faço ideia!

Acre­dito que haja muita gente com medo de agu­lhas. De certo, essas pes­soas não terão medo das agu­lhas se estas ser­vi­rem para lhes sal­var a vida. E, então, vão dese­jar que haja san­gue dis­po­ní­vel que lhes valha! Espe­re­mos que não se esque­çam que alguém, altruís­ti­ca­mente, com ou sem medo de agu­lhas, abdi­cou do seu tempo livre para doar aquele san­gue que é Vida.

O Ins­ti­tuto Por­tu­guês do San­gue dis­po­ni­bi­liza online toda a infor­ma­ção neces­sá­ria para quem ainda tiver dúvidas.

Não custa nada, não demora muito tempo e transmite-nos uma agra­dá­vel sen­sa­ção de dever cum­prido. Ah, é ver­dade, tam­bém pode sal­var vidas!

Beyond Belief, 2006

Realizaram-se no Salk Ins­ti­tute, La Jolla, Cali­fór­nia, entre 5 e 7 de Novem­bro as ª Con­ver­sas “Beyond Belief, 2006″.

Pro­mo­vi­das pela The Sci­ence Network, as con­ver­sas con­ta­ram com a par­ti­ci­pa­ção de alguns dos mais pres­ti­gi­a­dos pen­sa­do­res da actu­a­li­dade sobre o debate ciência/religião como Sam Har­ris, Richard Daw­kins, Ste­ven Wein­berg, Ann Druyan, Lawrence Krauss, Neil deGrasse Tyson, entre outros.

Os videos das con­ver­sas já estão dis­po­ni­veis online. Têm sido o meu pas­sa­tempo dos últi­mos dias. Reco­mendo viva­mente a sua visu­a­li­za­ção a todos os que se inte­res­sam por estes assuntos.

Numa altura em que, ao olhar à nossa volta, tudo parece dizer “fé” ou “reli­gião”, é con­for­tante aperceber-mo-nos que alguns dos mai­o­res “crâ­nios” da actu­a­li­dade têm, sobre esta maté­ria, uma visão muito seme­lhante à nossa.

Aborto (III)

Esta é a ter­ceira parte de uma série de tex­tos dedi­ca­dos ao aborto . Ver: Aborto (I), Aborto (II)

Gosto do Que Treta!. Ludwig Krip­pahl, o seu autor, é, tam­bém, um ateu con­victo e, curi­o­sa­mente, tam­bém defende o “ƒO” na res­posta ao refe­rendo que se avi­zi­nha sobre a “Inter­rup­ção” Volun­tá­ria da Gra­vi­dez. Coloco “Inter­rup­ção” entre aspas por­que me parece que come­çam logo aqui, na esco­lha do termo “Inter­rup­ção”, os pro­ble­mas da ques­tão colo­cada em refe­rendo. Segundo o dici­o­ná­rio Pri­be­ram online, “Inter­rup­ção” significa:

do Lat. inter­rup­ti­one

s. f.,

sus­pen­são;

acto ou efeito de inter­rom­per;

inter­mis­são;

reti­cên­cia.

Ora, isto sig­ni­fica, no meu enten­der, que a gra­vi­dez pode­ria ser reto­mada o que, obvi­a­mente, não é o caso!
Vol­tando ao Que Treta!, o Ludwig con­sul­tou os dados da O.M.S. (Orga­ni­za­ção Mun­dial de Saúde) — ver post –e che­gou às seguin­tes con­clu­sões estatísticas:

Hoje tive tempo para con­sul­tar os dados da O.M.S. (aqui). Em 2003 mor­re­ram em Por­tu­gal 52992 mulhe­res. Des­sas, por exem­plo, 1556 de can­cro da mama; 418 de aci­den­tes auto­mó­veis; 411 de que­das; 267 de sui­cí­dio; 38 por homi­cí­dio e outros cri­mes vio­len­tos. O número total de mulhe­res que mor­re­ram em Por­tu­gal em 2003 por com­pli­ca­ções rela­ci­o­na­das com gra­vi­dez, parto, ou pós-parto foi oito.

Repa­rem que oito é o numero total de todas as mor­tes rela­ci­o­na­das com gra­vi­dez e não exclu­si­va­mente rela­ci­o­na­das com o acto de abor­tar. É óbvio que enquanto este número for maior que zero ainda há muito por fazer. Uma morte são mor­tes a mais sob qual­quer prisma. Mas, então, que dizer das 418 mulhe­res que são viti­mas de aci­den­tes de auto­mó­veis, das 267 que se sui­ci­dam e das 38 viti­mas de homi­cí­dio? Não serão estas rea­li­da­des bem mais urgen­tes de abordar?

Ludwig vai mais longe e ana­lisa, ainda, os dados da orga­ni­za­ção Women on Waves e de uma reso­lu­ção do P.C.P. sobre aborto medicalizado.

O que me parece impor­tante ler des­tas esta­tis­ti­cas é que, por muito grave que seja, o aborto está longe de ser uma das prin­ci­pais cau­sas de morte em Por­tu­gal, por muito que os pro­pa­gan­dis­tas do “SIM” se esforcem.

Quero, no entanto, dei­xar bem claro que acre­dito con­vic­ta­mente que nin­guém é a favor do aborto, nem mesmo os defen­so­res do “SIM”. As mar­cas que fica­rão gra­va­das na mai­o­ria das mulhe­res pelo sim­ples facto de terem que tomar uma deci­são des­sas, mesmo antes do acto, serão, sem dúvida, enor­mes. No entanto, não me parece que dar ao aborto um esta­tuto con­tra­cep­tivo seja a solu­ção. Afi­nal, inde­pen­den­te­mente do enqua­dra­mento jurí­dico em que se pro­ces­sar o aborto as mar­cas fica­rão sem­pre lá, quer seja legal ou não.

Richard Dawkins, Ted Haggard e o fundamentalismo evangélico

Ted Hag­gard era, à altura desta entre­vista, pre­si­dente da Nati­o­nal Asso­ci­a­tion of Evan­ge­li­cals dos Esta­dos Uni­dos e pas­tor da Igreja New Life. Nesta peça, Richard Daw­kins faz-nos uma apre­sen­ta­ção da “nova Jeru­sá­lem” dos fun­da­men­ta­lis­tas evan­gé­li­cos ame­ri­ca­nos e con­fronta o pró­prio Ted Hag­gard. É tudo em grande… até o ver­niz come­çar a estalar!

Recen­te­mente, a 3 de Novem­bro, Ted Hag­gard renun­ciou a todos os seus car­gos devido a um escân­dalo de “con­duta sexual imo­ral”. Parece que o Pas­tor tro­cou alguns favo­res sexu­ais com um mas­sa­gista de nome Mike Jones. Enfim, nada de mais… se não exis­tisse a pala­vra hipo­cri­sia! Nem Deus, nem os ami­gos ter­re­nos lhe valeram.

Beatles, Love (ou a arte de reinventar com amor)

Quem me conhece melhor, sabe que desde os meus doze anos que sou vidrado em Bea­tles. Os Bea­tles, enquanto grupo, con­tri­buí­ram para o meu desen­vol­vi­mento e para o mol­dar da minha per­so­na­li­dade de uma forma que, às vezes, até a mim me sur­pre­ende. Conheço, claro está, a sua dis­co­gra­fia de trás para a frente e con­ti­nuo, ainda hoje, a des­co­brir novos “pra­ze­res” na audi­ção da sua música.

Como se não bas­tasse, foi agora edi­tada a banda sonora do espec­tá­culo “Love — Cir­que du Soleil” que decor­reu há uns meses atrás em Las Vegas. È de ficar side­rado. Basi­ca­mente, é um tra­ba­lho de remis­tura de pis­tas e não de temas, ou seja, pis­tas de gra­va­ção de um tema são mis­tu­ra­dos com pis­tas de gra­va­ção de outro tema, resul­tando num novo colo­rido musi­cal de sono­ri­da­des que já são fami­li­a­res, mas que sofrem um novo enqua­dra­mento e, logo, outra vida.

Des­taco a mes­cla entre “Within You, Without You” e “Tomor­row Never Knows”. A voz e a citara da pri­meira em cima dos efei­tos sono­ros e bate­ria da segunda! Espan­toso! E este é ape­nas um dos mui­tos exemplos.

Ao exce­lente resul­tado final não será alheio o facto de todo este tra­ba­lho ter sido da res­pon­sa­bi­li­dade de quem melhor conhece o catá­logo dos Bea­tles e as suas carac­te­rís­ti­cas téc­ni­cas. George Mar­tin, que pro­du­ziu todos os álbuns ori­gi­nais dos Bea­tles com excep­ção de Let It Be, aju­dado pelo seu filho Giles Mar­tin, fize­ram deste “Love” uma obra onde, a cada segundo, se sente que é, real­mente, um tra­ba­lho de muito amor. Obrigatório.

O link para ouvir online e na inte­gra está aqui.

John Safran e os Mormons

John Safran é uma espé­cie de ver­são aus­tra­li­ana de Michael Moore mas, na minha opi­nião, melhor. Antes, muito melhor! Pro­duz os seus vídeos sobre temas que o cha­teiam e não tem pro­ble­mas em cha­mar os bois pelos nomes.

John Safran considera-se o Mahatma Gandhi da tole­rân­cia, mas que o cha­teiem ao Sábado antes da hora do almoço com pro­pa­ganda reli­gi­osa, isso é que ele não admite, de maneira nenhuma.

Neste vídeo, vejam a vin­gança de John Safran, em Salt Lake City, divul­gando a pala­vra de Darwin, acom­pa­nhado sem­pre por um exem­plar de “A Ori­gem das Espé­cies”. Fenomenal!

Aborto (II)

Esta é a segunda parte de uma série de tex­tos dedi­ca­dos ao aborto . Ver Aborto (I).

Natu­ral­mente, con­forme se apro­xima a data em que o Pre­si­dente da Repu­blica terá que indi­car a data para rea­li­za­ção do refe­rendo sobre o aborto, come­çam a che­gar às pági­nas dos jor­nais, às tele­vi­sões e aos blo­gues um maior número de opi­niões sobre o assunto.

Entendo a maior parte das razões dos apoi­an­tes do “SIM” embora, de uma forma geral, não con­corde com elas. Já não entendo, con­tudo, o pés­simo ser­viço que uma parte con­si­de­rá­vel dos comen­ta­do­res habi­tu­ais dos nos­sos media pres­tam à sua causa ao con­cen­tra­rem o seu esforço de raci­o­cí­nio em com­ba­ter a posi­ção da Igreja. Con­cordo que a Igreja devia ter ver­go­nha de se pro­nun­ciar sobre estas maté­rias. No entanto, tem todo o direito de o fazer, tal como eu, qual­quer outro cida­dão ou orga­ni­za­ção. O direito de opi­nião não é reser­vado a meia dúzia de ilu­mi­na­dos da treta, mui­tos deles agen­tes de pro­pa­ganda dis­far­çada de for­ças partidárias.

Por outro lado, essa ideia de que ape­nas a Igreja é defen­sora do “ƒO” soa dema­si­ado repes­cada. O aborto é, sem dúvida, um assunto que divide a soci­e­dade — não só a nossa, oci­den­tal, mas a nível glo­bal. De facto, exis­tem mui­tos cida­dãos assu­mi­da­mente cató­li­cos que irão votar “SIM”, assim como mui­tos cida­dãos que se estão a bor­ri­far para a Igreja que irão votar “ƒO”. As ques­tões morais, legais e cul­tu­rais são dema­si­ado com­ple­xas para res­pos­tas simples.

Como escrevi na pri­meira parte desta série de tex­tos sobre o aborto, as ques­tões que ficam por res­pon­der, às quais a per­gunta colo­cada a refe­rendo não dá garan­tias, são dema­si­a­das. Preocupa-me o tra­ta­mento que será dado às várias situ­a­ções soci­ais envol­ven­tes de um epi­só­dio de aborto. Recen­te­mente, numa sequên­cia de comen­tá­rios a um blog que visito regu­lar­mente e cujo autor é defen­sor do “SIM”, colo­quei algu­mas ques­tões que, curi­o­sa­mente, não me foram res­pon­di­das. Passo a trans­cre­ver o meu comentário:

Caro Luis,

Vou dar-lhe alguns cenários:

1 — A Mique­lina ganha 450€ por mês, tem o marido desem­pre­gado e 3 filhos em idade esco­lar. Engravida.

2 — A Sissi tem 17 anos, vai a uma festa de anos duma amiga numa dis­co­teca da moda, bebe demais e dá uma queca com o irmão do DJ no WC dos fun­ci­o­ná­rios. Engravida.

3 — A Anita, 21 anos, foi vio­lada às 2 da manhã por um tarado quando vinha do call-center onde tra­ba­lhava em part-time, com reci­bos ver­des, para con­se­guir aca­bar de pagar o curso. Engravida.

4 — A Dona Ger­tru­des, 35 anos, divor­ci­ada, foi a uma con­sulta de esté­tica por causa de uma ver­ruga na áxila, e aca­bou por se demo­rar mais 15 minu­tos na mar­quesa. Engravida.

Faço-lhe as seguin­tes per­gun­tas:
– Você põe estes casos todos no mesmo saco?
– Você acha que a nova lei deve pôr estes casos todos no mesmo saco?
– Na per­gunta que vai ser refe­ren­dada você encon­tra algum sinal de que estes casos irão ou não ser pos­tos todos no mesmo saco?

Só uma coisa mais: Você acha que eu devo votar segundo que prin­cí­pios éticos que não os meus? Segundo os seus? Credo, homem, que ati­tude tão episcopal!!!

Ou seja, voto “ƒO” por­que não con­cordo que o aborto seja tra­tado como mais um pro­cesso anti-concepcional. Voto “ƒO” por­que não será atra­vés do aborto que ire­mos aca­bar com a desin­for­ma­ção quer ao nível da edu­ca­ção sexual, quer ao nível da des­res­pon­sa­bi­li­za­ção dos nos­sos actos enquanto cida­dãos. Voto “ƒO” por­que atra­vés da libe­ra­li­za­ção do aborto o pró­prio Estado se esta­ria a des­car­tar da sua obri­ga­ção em maté­ria de for­ma­ção e sen­si­bi­li­za­ção. Voto “ƒO” por­que, do ponto de vista médico, o nosso sis­tema naci­o­nal de saúde pre­cisa de mui­tos mais inves­ti­mento em recur­sos téc­ni­cos e huma­nos para tra­tar doen­tes de facto.